Como eu me sinto? Faz alguns dias que não sinto.
Não sei o que é chorar, não sei mais o que é ficar triste a não ser pelo passado. Faz alguns dias que não sei o que é dormir direito. Há alguns dias não sonho. As vezes penso que minha alma sai todas as noites em busca da parte que lhe foi roubada. Volta frustrada, sempre. Provavelmente invade o sonho dos outros em busca de ajuda. Porque quando abro o olho, a tristeza toma conta de mim automaticamente - como se eu soubesse que jamais terei paz novamente. Acordo quase sempre na mesma hora, durante a madrugada. Demoro pra dormir de novo, quando consigo. A respiração encurta, sufoca.
Qual o motivo? Qual a missão? Apenas nostalgia?...
Faz dois anos que a cabeça opera em "modo de segurança". Os dias perderam um pouco do viço, as noite, do charme, as mulheres, do sentido e, a madrugada, ganhou na minha solidão uma companheira inseparável. Há dias em que me forço em ir à festas, mas fingir que participo de uma visão do mundo quase suicida, apenas pra satisfazer certos desejos... já não consigo mais. A brincadeira foi longe. Algumas vezes só o torpor, o estado de inconsciência, para socorrer a mente. Alivia a dor, cessa a voz, dissipa o cheiro, desmascara a mentira.
É muito ruim pensar que tudo que você acreditou e levou em garantia nos últimos tempos era mentira. É desnorteador. Já não tenho mais controle. É difícil concentrar, manter o foco. Difícil de lembrar até mesmo quem sou eu, em alguns momentos. Para não enlouquecer, finjo que certas pessoas estão mortas. E de certa forma estão. Mas as cicatrizes são visíveis, e sou obrigado a contemplá-las todos os dias no espelho.
É desesperador pensar que estou condenado a lembrar...
Diego Mafra Salles