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domingo, 28 de novembro de 2010

COMO ACABAR COM O TRÁFICO

Traficantes esgueirando-se às centenas, quiçá milhares, feito baratas pelos matos dos morros cariocas. Homens de bermudas, sem camisa, mas com fuzil AK nos ombros. Bandidos com capacidade de fogo suficiente para arremessar granadas em blindados.

Como é possível que sejam tantos e reúnam tamanho poder?

Simples: o poder vem da maior fonte de poder do mundo: do dinheiro.

E de onde vem esse dinheiro?

Óbvio: do comércio de drogas.

E uma última pergunta: por que o comércio de drogas é tão frutuoso?

Essa pergunta é decisiva. Afinal, não existem tantas pessoas que consomem drogas. A maioria, a IMENSA maioria, não consome drogas. No entanto, existem consumidores de drogas, é claro que existem, e eles são, quase todos, jovens que passam pela droga algumas vezes e a abandonam logo ali.

O que torna o tráfico lucrativo, portanto, não é o consumo massivo da droga: é a proibição da droga. A droga, tornada clandestina, não paga imposto, não assina carteira, nem tem controle de qualidade.

Se, de um dia para outro, o Estado proibir a venda de sabão, as pessoas ainda assim continuarão usando sabão, levando alguns a produzir sabão e outros tantos a vender sabão. O comércio do sabão continuará farto, embora proibido. Mas, proibido, não pagará nenhuma taxa, nenhum imposto, nada. Não terá nenhuma obrigação social. Os trabalhadores envolvidos na produção e na venda do sabão não terão direito a férias, décimo-terceiro, horas extras etc. E o dono da fábrica clandestina de sabão ficará rico, poderá comprar armas para enfrentar a polícia que tenta reprimir o tráfico de sabão. Terá tantos recursos que corromperá a própria polícia e a justiça para continuar vendendo o seu sabão.

Aí chega um legislador convincente e demove o Estado da proibição do sabão. A venda do sabão foi liberada! Agora, os produtores de sabão terão de montar uma sede legalizada, com recepcionista e pagamento de IPTU; terão de registrar seus trabalhadores e pagar-lhes os direitos exigidos pela lei; terão de pagar os impostos sobre a produção e a venda do sabão, o imposto de renda, os impostos sobre propriedade. Agora, os produtores de sabão não usam mais bermudas e nem ficam sem camisa: eles usam terno e gravata. Eles ganham muito menos. E pagam muito mais.

Pegue aquele traficante que se rasteja pelo morro de bermuda, sem camisa, mas com um AK nos ombros, troque seu fuzil por uma pasta de executivo, meta-lhe dentro de uma gravata, legalize-o e faça com que o sistema o absorva.

Pronto. Acabou a criminalidade.

Transformar a droga de um problema de segurança em um problema de saúde, esse é o caminho para acabar com a guerra urbana do tráfico.

Texto de David Coimbra, em seu blog!

Rafa

sábado, 9 de outubro de 2010

TIRIRICA DO BRASIL

O cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Palhaço Tiririca, foi eleito como o deputado federal mais votado do País, com mais de um milhão de votos. No meio da semana, porém, o tribunal eleitoral de São Paulo questionou sua capacidade de ler e escrever. Quase todos os “letrados”, principalmente com manifestações nas redes sociais, acharam um absurdo a eleição do palhaço. Sim, é absurdo, mas quem menos culpa tem nesse processo é o próprio deputado eleito.

Primeiro, porque foi a campanha mais honesta que eu já vi. Se fizermos uma pesquisa rápida, ainda que empírica, entre todos os candidatos, incluindo aí alguns eleitos, perguntando aos mesmos se sabem o que faz um deputado federal, será enorme o número de respostas afirmando desconhecer a tarefa. Tiririca, pelo menos, teve a honestidade de dizer que não sabia. Quem votou nele, portanto, sabia muito bem disso. E os que votaram nos candidatos que não sabem, mas não falaram nada? Honesto, também, porque disse em alto e bom tom que, se eleito, ajudaria muita gente, a começar por ele mesmo e sua família. Do mesmo jeito, quantos não pensam dessa forma, porém não falam?

Seus detratores, infelizmente, são incapazes de criticar os partidos políticos, os magistrados e a elite que, por mais letrada que seja, não consegue se mobilizar para sequer propor uma reforma política que iniba esse tipo de candidatura, ou que acuse seus problemas (no caso o analfabetismo do candidato) antes das eleições, porque, se configurar mesmo o crime, pelo menos um milhão de pessoas terá, literalmente, perdido seus votos.

E os analfabetos políticos, muitos deles eleitos ou reeleitos, não teriam também que passar por um teste sobre seus conhecimentos políticos? E aposto que muitos seriam reprovados. Por fim, não podemos esquecer que os Estados Unidos elegeram George Bush, a Itália elegeu Silvio Berlusconi, e olhem bem alguns eleitos em Santa Catarina. Entre estes, mil vezes o palhaço original.

Coluna de Fábio Brüggemann, no DC de hoje.

Rafa

sábado, 28 de agosto de 2010

MUITO ANTES DOS DINOSSAUROS

Há pouco menos de 14 bilhões de anos tudo no universo era praticamente nada. Um pontinho, só, e muito, muito menor do que este que ora pingarei: . Então, toda aquela energia concentrada, por algum motivo, CATABLOM!, explodiu. Era o Big Bang. As coisas estavam começando.

Passaram-se 9 bilhões de anos, um pouco mais. Aí foi a vez de uma supernova explodir na Via Láctea. Uma das lascas dessa supernova transformou-se em uma estrela de estatura mediana, o Sol. Isso aconteceu há quatro bilhões e 600 milhões de anos. Pelas estimativas dos cientistas, o Sol continuará ardendo por mais cinco bilhões e 400 milhões de anos. Depois, como todo o resto do Universo, esfriará. Quando o Sol se apagar, a vida por aqui ficará meio difícil, prepare-se, compre velas.

Após a criação do Sol, transcorreram alguns milhões de anos. Côsa pôca, como se diz no Alegrete. E a Terra surgiu de um daqueles pedaços de estrela que andavam pelo espaço. No princípio, não era um bom lugar para se morar. Não havia chão, nem água. O planeta todo era uma bola de fogo e lava borbulhante. Com todo aquele calor, a água não se condensava. Permanecia na atmosfera, em forma de nuvens de vapor. O tempo prosseguiu assim, horrível, por uns 500 milhões de anos. Aí piorou. Como a Terra esfriou um pouquinho, começou a chover. Quando chove um fim de semana, a gente se irrita, não é? Imagine que naquela época choveu durante MILHÕES de anos. Tempestades violentas, elétricas, paredes d’água desabando e formando, enfim, os oceanos. Ao mesmo tempo, as placas de terra recém-constituídas se moviam, liberando gases das entranhas do planeta de forma extremamente ruidosa, fenômeno que os cientistas, demonstrando todo o seu bom gosto, chamam de “O Grande Arroto”.

Enquanto isso tudo acontecia, a Terra foi esfriando e assim a crosta da superfície aos poucos se solidificou. As rochas mais antigas foram descobertas na Groenlândia. Elas têm 3,8 bilhões de anos de idade. Por essa época, raios duplos, raios triplos, mil vezes raios desabavam nos jovens oceanos. As descargas elétricas causaram uma reação inesperada naquela sopa química primeva: deram origem às primeiras formas de vida. Não faz muito, os cientistas identificaram um fóssil de bactéria com 3,5 bilhões de anos.

A partir desse ponto, as bactérias tomaram conta da Terra. Não havia um milímetro quadrado que não estivesse completamente coberto de bactérias pegajosas, um nojo. Mas foram essas bactérias que fixaram no ar elementos indispensáveis a outras formas de vida. Por outros bilhões de anos elas fermentaram e se reproduziram, até que, deste processo, surgiram as plantas pioneiras. O mundo vegetal é jovem: tem 460 milhões de anos.

Agora, tudo foi mais rápido. Há 250 milhões de anos, o mundo inteiro estava coberto de samambaias gigantes, maiores do que árvores, impossíveis de se acomodar em um vaso na sala. Mais ou menos por esse tempo, os animais marinhos deram um jeito de subir à terra firme. O primeiro deles, o número 1, foi o querido… tatuzinho! Olhe para um deles na areia na próxima vez que você for a Pinhal. Era assim o seu tataratataratataratataratataratataratataratataravô.

Os peixes eram os donos da Terra, portanto. Você já viu um peixe transando? É assim: a peixa nada para algum lugar e deposita ali os seus óvulos, um monte deles. Aí o peixo nada até lá, deita o esperma em cima dos óvulos e vai embora. Pronto. Fim. Consummatum est. É por isso que não existe nenhum canal de sacanagem de peixe na TV a cabo.

Quando os anfíbios evoluíram e se tornaram répteis é que os machos resolveram depositar o esperma dentro da fêmea, e não fora. Graças aos répteis, pois, a Humanidade criou calcinhas de rendinha, o conjunto minissaias & botas, toda a teoria psicanalítica de Freud e as tatuagens da Megan Fox.

Os répteis evoluíram tanto, aqueles serelepes, que se transformaram nos dinossauros e tomaram conta do mundo. Mas há 65 milhões de anos um meteoro de 200 quilômetros de largura caiu no México, tirou a Terra do eixo e os dinos se extinguiram. A essa altura, Pangeia, que era o único bloco de terra do planeta, já havia se rompido. Os continentes estavam separados irremediavelmente e nós fomos condenados a ir para a Europa de avião.

O primeiro hominídeo foi dar as caras no planeta há 4,5 milhões de anos. O homo erectus há 1,8 milhões de anos. E a nossa atual forma humana, o homo sapiens, há 150 mil anos. Destes, 140 mil anos foram de caça, coleta e nomadismo. A Civilização existe há 10 mil anos, nada mais. O Brasil há 510. Porto Alegre há menos de 300. O Campeonato Brasileiro começou em 1971. O sistema de pontos corridos desde 2003.

Pense nisso tudo. Pense nessa grande história. Pense em perspectiva. Que importância tem se um time for rebaixado em 2010?

Texto do excelente David Coimbra, direto de seu blog!

Rafa

domingo, 22 de agosto de 2010

AVÔ INDIGNADO!

Protesto!

Desde quando avô tem pulga na cueca?

Existe uma campanha para revisar as letras de canções infantis que vêm sendo cantadas há anos sem que os responsáveis pelas crianças se deem conta do seu conteúdo. O caso mais notório é o do gato atingido por um pau, que não morre, como era a intenção de quem atirou o pau, mas dá um berro que faz dona Chica dimirar-se-se e presume-se foge da cena, traumatizado. Sabe-se pouco sobre a origem da canção e a história por trás da sua letra. Atirar um pau num gato pode ser uma ação preventiva (ninguém sabe o que o gato iria fazer com a dona Chica) ou a manifestação precoce de um instinto assassino na criança, que deve receber orientação psicológica antes de ter acesso a armas mais sofisticadas. De qualquer maneira, a canção revela um perturbador descaso pelos sentimentos de outro ser, por mais antipático ou atrevido que este seja, e por mais pelos que solte nos sofás, e é um péssimo exemplo para mentes ainda em formação.

A canção Atirei um Pau no Gato sobreviveu sem ser examinada todos esses anos porque nenhum gato pode protestar. Como representante da espécie, farei o possível para que o mesmo não aconteça com outro animal de sangue quente rotineiramente vitimado por impropérios e projéteis verbais mais contundentes do que paus, em canções infantis. Refiro-me aos avôs. Na condição de neo-avô, tenho tido contato frequente com essas tentativas de ridicularizar a categoria, fomentando o desrespeito à autoridade e o escárnio aos mais velhos e ameaçando o tecido social e os valores tradicionais da família.

Basta um exemplo do que se escuta por aí, muitas vezes cantado por crianças que mal começam a falar e só repetem o que ouvem:

Eu vi uma barata na careca do vovô e quando ela me viu bateu asas e voou.

Notem a insídia mal disfarçada pela singeleza do verso. Em primeiro lugar, a sugestão de que todo avô é, por definição, careca. Mesmo os que, como eu, ainda têm mais de 17 fios na cabeça e portanto não ultrapassaram o limite oficial da calvície. Outra sugestão infamante é a de que o vovô, de tão desleixado e/ou alienado, não notaria a presença de baratas passeando pela sua cabeça. Que dependeria de netos que fizessem voar as baratas para não dar vexame em ocasiões sociais e não ouvir piadas na rua sobre sua higiene pessoal e sua sanidade. Ainda somos perfeitamente capazes de detectar baratas na nossa própria cabeça e enxotá-las com nossos próprios meios!

Mas há mais. Uma versão agravada da mesma letra leva o desrespeito às raias da injúria. Segundo esta versão, localizou-se uma pulga na cueca do vovô, o vovô deu um pum e a pulga desmaiou. O vovô deu um pum e a pulga desmaiou! Desde quando avô tem pulga na cueca? Desde quando avô dá pum? A que ponto chegamos, quando se recorre até a flatulência hipotética para denegrir aquele que deveria ser apenas objeto de veneração? Em nome da classe, protesto.

Verissimo, no ZeroHora de hoje

Rafaela

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

PELO FIM DA PRODUTIVIDADE

Mas palavra feia mesmo é produtividade. Sempre que um economista fala em “crescimento” eu coloco as mãos nos bolsos. Não, não é metáfora de descansar e assistir a banda passar, mas para ver se os minguados centavos que carrego cresceram mesmo.

Esse papinho aí de economia é mais metafísico que qualquer novela de reencarnação. O fato de o produto interno bruto (ainda que eu nunca tenha visto um “produtointernobrutômetro” na vida) aumentar ou reduzir é muito café pequeno para a conversa que todo político esquece na hora de prever o crescimento ou medir a tal “produtividade”, que é a distribuição dessa renda toda.

Por que essa turma não fala que crescer demais também tem suas mazelas? Aliás, quer saber, tem muito mais danos que lucros. Estamos tão acostumados com a cultura protestante, aqui no sul principalmente, e a do colono trabalhador católico, que nem vive de tanto trabalhar, baseada na moral escravocrata do trabalho, que nem nos damos contas que já está mais do que na hora de parar de crescer e distribuir de vez.

A ideia de que devemos consumir para crescer é o que está nos matando. Há tempos morreu o Homo Sapiens, e no lugar dele nasceu o Homo Shopins. Portanto, chega, não queiram me vender mais nada, parem com essa mania insana de achar que preciso de coisas.

Meu aparelho celular faz e recebe e está bom assim. Meu carro tem onze anos de idade e chega em qualquer lugar que uma Ferrari também chega. Minhas roupas estão puídas mas ainda me protegem do frio. Portanto, economistas, políticos, publicitários, trabalhadores do meu Brasil varonil, eu quero apenas pegar um sol, tomar meu mate, namorar e ler um livro.

E isto está bem bom. E por favor, distribuam essa riqueza enorme que tem por aí, porque vocês não podem levar pra baixo da terra quando a indesejada das gentes chegar.


Texto extraído do blog de Fábio Brüggemann


Rafa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Polícia para quem precisa

“Dizem que ela existe/Pra ajudar/Dizem que ela existe/Pra proteger/Eu sei que ela pode/Te parar/Eu sei que ela pode/Te prender/Polícia! Para quem precisa...”

Já assiti a mais de um show dos Titãs e eles sempre provocam uma excitação na plateia ao tocar essa música. Plateia majoritariamente jovem que têm com a polícia uma relação pouco amistosa ou muita amistosa, dependendo da situação. Polícia é pró ou contra conforme o lado que estamos.

Para o rapaz que atropelou o filho da atriz Cissa Guimarães, a polícia foi uma mãe. Os agentes foram testemunhas quase oculares do acidente, já que chegaram ao local do atropelamento poucos minutos depois, antes mesmo das ambulâncias, mas desdenharam do acidentado e se concentraram no atropelador, aquele que dirigia um carro semidestruído e que poderia render uma gorda propina. Infelizmente, no lugar do motorista, muitos teriam feito o mesmo: “Quanto você quer para não ter me visto?” No lugar do policial, poucos teriam respondido: “Quero os fatos, apenas”. Policiais ganham uma merreca, trabalham em atividade perigosa, são estigmatizados e mal treinados. Não há muito interesse em ser honesto às duas da manhã.

Dias depois, um policial de Fortaleza, outro despreparado, atirou contra Bruce Cristian, que tinha nome de artista, mas não era artista, estava apenas na carona da moto do seu pai, que não viu o PM tentando interceptar seu caminho e acelerou em frente, o que bastou para que seu filho de 14 anos levasse um tiro na nuca, por trás.

“Dizem pra você/Obedecer/Dizem pra você/Responder/Dizem pra você/Cooperar/Dizem pra você/Respeitar/Polícia! Para quem precisa...”

Tudo é acidental. É o que consta dos relatórios, dos inquéritos, dos depoimentos: desculpe, foi acidental. Matar é um acidente. Corromper é um acidente. O Brasil é um acidente.

Difícil apontar inocentes e culpados num país que não consegue fazer seus cidadãos entenderem a importância da seriedade na conduta social, um país que não consegue moralizar o cotidiano, que possui uma lei para cada caso e não uma lei única e severa que se imponha sobre o “acidental”. Somos todos franco-atiradores querendo se safar. Policiais vestem um uniforme e portam armas com a chance de brincar de mocinho e bandido, sem se darem conta de que a bala não é de festim. E ainda têm a rara oportunidade de se sentirem superiores a filhinhos de papai: “Quero 10 mil, estaciona ali e te vira”. E os cadáveres ficam pelo caminho. Polícia, quem precisa?

Todos nós precisamos da polícia. De homens cuja missão é nos proteger. E os policiais precisam de nós também, que deveríamos fazer a nossa parte, agindo com civilidade e assumindo nossos erros. Porém, sem treinamento e salário decente nas corporações, sem educação e respeito às leis na sociedade, enfim, sem uma ética nacional que valha para todos, instala-se o faroeste.

Martha Medeiros, no Zero Hora de hoje

thunder

segunda-feira, 5 de julho de 2010

PICASSO E GOYA SOB O SOL

da série: 'Diálogos Impossíveis'

As Meninas - Diego Velásquez, 1656 - Museu do Prado - Madri

Uma tarde, depois de um bom almoço, estirado numa cadeira preguiçosa no terraço da sua casa na Côte DAzur, Picasso adormece e sonha que está no museu do Prado, em Madri, na frente do quadro As Meninas, do Velázquez, e que ao seu lado está alguém que a princípio ele não reconhece. Ele e o outro são as únicas pessoas no grande salão do museu onde a pintura de Velázquez é o único quadro. A pintura de Velázquez é o único quadro no museu inteiro.

Picasso julga reconhecer o homem ao seu lado, mas não tem certeza de que seja quem está pensando.

– De onde eu conheço o senhor?

– Talvez dos meus autorretratos...

– Francisco Goya!

– Em pessoa. Ou o que resta dela. E o senhor é...

– Pablo Picasso.

– Foi o que eu desconfiei. Mas nos seus autorretratos o senhor nem sempre é reconhecível...

– É que eu nunca aceitei que os dois olhos não pudessem ser do mesmo lado do nariz.

– Mas eu deveria ter lhe reconhecido pelas fotografias. O senhor é uma das pessoas mais fotografadas do mundo. Eu o invejo.

– Por ser tão fotografado?

– Não. Por poder pintar os dois olhos no mesmo lado do nariz. E a boca onde quiser. E os pés no lugar das orelhas. Eu não tive essa liberdade. Fui um revolucionário na minha arte, mas não o bastante. Éramos reféns da anatomia. O senhor se libertou disso.

– Me diga, o que o senhor acha dessa ideia de esvaziar o Prado e deixar só As Meninas, do Velázquez em exposição?

– Acho justo. É uma maneira de dizer que, depois de Velázquez, toda a pintura é supérflua.

– Mas as suas pinturas negras também foram banidas do museu, com todas as outras..

– Está certo. Eu não as pintei para serem expostas. Foram pintadas nas paredes da minha casa, para só serem vistas por mim. São expressões da minha misantropia, do meu asco pela vida, da minha loucura final. Quem quer ver a sua degradação exposta em público?

– Elas são as pinturas mais poderosas e inquietantes jamais feitas. E olha que eu não sou de elogiar a concorrência.

– O seu Guernica não fica atrás...

– Obrigado, mas eu acho Guernica uma ode à inutilidade da arte. Foi elogiado como um libelo contra a estupidez humana, mas não impediu que outras Guernicas acontecessem, e a estupidez humana prevalecesse. Guernica foi apenas um aperitivo para Hiroshima.

– Somos supérfluos de várias maneiras, além da que decretou o Prado. Todo artista é supérfluo.

– Menos o Velázquez.

– Menos o Velázsquez.

– Sabe, senhor Goya, muita gente já nos comparou, e notou como nossas trajetórias são opostas. O senhor começou como pintor da corte, retratando a vida alegre da aristocracia na Madri dos Bourbons e acabou doente, num exílio amargo entre pinturas negras, sozinho e esquecido. Sua trajetória foi da frivolidade para as trevas. Eu, ao contrário, fui ficando cada vez mais mundano, cada vez mais frívolo. Comecei como um artista de vanguarda incompreendido e acabei como uma celebridade internacional, uma das pessoas mais fotografadas do mundo, fazendo arte instantânea como criança. Apesar de velho, ainda tenho saúde e tesão pela vida. Agora mesmo, acabo de comer um peixe maravilhoso feito pela minha atual mulher. A sétima, se não perdi a conta.

– Por sinal, senhor Picasso, obrigado por sonhar comigo na sua sesta. A única maneira que eu tenho de voltar à vida, nem que seja só para rever As Meninas, é na imaginação dos outros. E, não sei se o senhor notou, no seu sonho eu não sou surdo, como fui durante grande parte da minha vida. Muito obrigado.

– Olhe, senhor Goya! Que estranha luminosidade emana do quadro do Velázquez! O senhor não está vendo?

– Não, eu...

– Parece o sol. É a luz de um sol!

Picasso acorda com o sol na sua cara. Pensa em chamar a mulher para lhe trazer um chapéu, mas não se lembra do seu nome.

Verissimo, como sempre fantástico, no Zero Hora de ontem

thunder

segunda-feira, 21 de junho de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

A vida sem rodinhas

Quando é que sabemos que estamos aptos a andar por nossa conta?

Lembro que nos momentos importantes da infância, e também nos desimportantes, meu pai estava sempre a postos empunhando uma máquina fotográfica. A consequência disso? A cada gaveta que eu abro aqui em casa, jorram fotos diversas, sem contar as que estão confinadas em álbuns e porta-retratos. Dessas tantas, há uma pela qual tenho um carinho especial: é uma foto em que estou andando de bicicleta, aos 5 ou 6 anos de idade. Naquele dia eu andei sem rodinhas pela primeira vez. Dei várias voltas sem cair, até que meu pai clicou o flagrante: a pirralha com a maior cara de vencedora, dona do campinho, se achando. Eu realmente estava degustando aquela vitória. Se a foto tivesse legenda, seria: Viu?.

As rodinhas são uma base protetora para iniciantes, uma segurança para quem ainda não tem domínio da coisa. Que coisa? Qualquer coisa. Me corrija se eu estiver errada: a gente usa rodinhas até hoje.

Quando se escreve um livro, por exemplo, as rodinhas são a parte não ficional, o sentimento de verdade, vivido, com o qual a gente ampara a ficção.

Quando se tem um filho, as rodinhas são a herança da educação que nossos pais nos deram, a parte hereditária que, mesmo questionada, sustenta nossas primeiras decisões.

Quando nos apaixonamos, as rodinhas são a repetição de certos clichês, a apresentação dos nossos ideais e certezas, mesmo sabendo que em breve entraremos em terreno movediço, desconhecido.

Quando se aceita um emprego, as rodinhas são a nossa experiência anterior, o que facilita a arrancada, mas depois é preciso andar sozinho.

Sempre chega a hora de tirar as rodinhas. Medo e êxtase.

Viver sem elas torna tudo mais perigoso, vulnerável, e ao mesmo tempo, emocionante. Nos faz voltar a ser crianças: será que estou agindo certo, será que não estou indo rápido demais, ou lento demais? Atenção: lento demais, cai.

É preciso saber viver sem um suporte contínuo, para que se possa firmar o próprio caráter. Quem não sai da barra da saia da mãe, nunca consegue se equilibrar sozinho. Quem não solta a mão do pai, não vira homem.

Não se trata de dispensar amor. Estamos falando de rodinhas, lembre. Apoio.

Quando é que sabemos que estamos aptos a andar por nossa conta? Se o assunto é bicicleta, aos 5, aos 6, aos 7, até aos 10 anos, dependendo do ritmo e da estabilidade de cada um.

Quando se trata da vida, também depende. Mas usá-las para sempre te impedem de sentir o gostinho de conseguir, de vencer, de atingir suas metas por si só.

Te impedem de perguntar: “Viu?”.

Permita que os outros vejam o quanto você pode.

Martha Medeiros, no Zero Hora de ontem

thunder

sábado, 5 de junho de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Sons que confortam

O choro na sala de parto, o primeiro “eu te amo”, o barulho forte da chuva quando você está no quentinho da sua cama...

Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele que conta, hoje, adulto: Nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

Inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. Na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.

E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

Deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza.

O aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

A sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

O sinal da hora do recreio.

A música que você mais gosta tocando no rádio do carro. Aumente o volume.

O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

E o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

Martha Medeiros, no Zero Hora de amanhã, que como bom jornal de domingo, fica pronto no sábado de tarde e traz notícias de sexta...

thunder

sábado, 29 de maio de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O fato se passa em Florianópolis, mas a veracidade das ideias do autor pode ser transportada para todos os municípios brasileiros.

Quem não pula quer tarifa

A primeira impressão que tive ao acompanhar as manifestações que estudantes estão fazendo desde que os preços das passagens aumentaram na Ilha foi lembrar-me das tantas passeatas que participei quando era estudante. A segunda foi pensar no motivo pelo qual apenas estudantes estavam na passeata. A terceira foi perceber que tem muito, mas muito mesmo, policial na Ilha. Ao contrário da sensação de segurança que seria normal ter diante de tantos homens e mulheres armados, tive foi é muito medo. Ôpa, alguma coisa aqui está errada, porque se eu pago bastante imposto para ter segurança, e quando me deparo com a sua represetnação fico com medo, é sinal de que a ordem das coisas está mudando.

Só mesmo um incauto não entenderia que o aparato policial, ideologicamente, não foi criado para dar segurança aos que o sustentam, mas, pelo contrário, para dar segurança ao próprio Estado, principalmente contra aqueles que o contestam. Se a polícia existisse mesmo para nos dar segurança ela daria, estaria nas ruas, teria postos policiais em cada esquina de cada bairro (e não é mais desculpa dizer que não tem contingente, porque eu vi), mas não tem. Ela aparece apenas quando o Estado sente-se ameaçado, quando o Estado não tem mais inteligência para argumentar, e quando ele nos rouba, seja em tarifaços, seja ajudando empresas amigas, seja superfaturando obras, seja, enfim, nos sacaneando nas multas de trânsito ou nos altos salários dos políticos e cargos comissionados.

Mais de 4 mil pessoas gritavam “quem não pula quer tarifa”, pedindo para que a população (afinal, só estudante pega ônibus?) descesse dos prédios e engrossasse a passeata. Mas adultos são medrosos, preferem ser vilipendiados pelo Estado a dar a cara numa passeata, prefere ficar em casa assistindo novela a não reclamar da falta de policiais quando mais precisa, porque quando seu carro é roubado, quando sua casa é roubada, quando matam seu parente, ainda colocam a culpa no ladrão. Mas os ladrões de verdade estão protegidos pela lei que eles mesmos criaram e ainda têm a polícia para protegê-los de nós.

Fábio Brüggemann, no DC de hoje.

Rafa

domingo, 23 de maio de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

SAÚDE MENTAL

Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século 6 antes de Cristo, e que certa vez disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu novo livro (A Paixão, Caminhos & Descaminhos, em que ele discute os fundamentos da psicanálise). Escreve Guedes: “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro, é o doente.

Do nascimento à morte há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez de nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida?

A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois é, nenhum.

Dá medo, no início. Mas o segredo está em acostumar-se com a ideia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir.

Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegida apenas pela consciência que tem de si mesma e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar.

Já o sadio baila sobre o precipício.

Martha Medeiros, na Zero Hora de hoje.

Rafa

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O que as mulheres realmente querem

Disse, certa vez, o que uma mulher realmente quer. Agora direi de novo. Falo, atenção!, do que uma mulher re-al-men-te quer. É o seguinte:

Autoridade.

Ela quer que você, homem, tenha autoridade.

Isso demanda alguma sutileza da sua parte – mulheres são seres sutis. Prova? As calças sem fundilhos. Existe alguma razão para que elas usem aquelas calças sem fundilhos, uma razão oculta, muito bem dissimulada, que nós, na nossa bruta avaliação estética, não alcançamos. Por que uma mulher quereria ficar horrenda, como elas ficam dentro daquelas calças? Deve ter um motivo. Suspeito que jamais descobriremos.

De qualquer forma, a sutileza da qual você necessita é menos complexa. Basta entender que ela espera que você tenha autoridade, mas não seja autoritário. Assim como quer que você seja divertido, não palhaço; gentil, não subserviente; generoso, não perdulário; bondoso, não otário; atencioso, não obcecado; interessado, não inconveniente; elegante, não vaidoso; prudente, não covarde.

É simples.

Se você atender a esses requisitos, as mulheres agradar-se-ão de você. Mas você não poderá dispensar a autoridade. Porque a mulher é assim: pense agora na mulher mais afetada, pedante e posuda que você conhece. Provavelmente ela é também uma mulher bonita. Talvez tenha algum poder. Talvez seja até a sua chefe. Ela manda, ela com seus tailleurs, ela se diz feminista, ela exige seus direitos, ela é cheia de argumentos, certo?

Certo.

Só que, na última esquina da alma, no escaninho mais escuro e bem guarnecido de seu ser, homizia-se o seu verdadeiro desejo: o de encontrar um homem que a chame de sua cachorrinha, ou, vá lá, gatinha. Porque ela quer ronronar no calor do colo deste homem, quer se aconchegar em seu braço forte, quer que ele a proteja como se fosse seu pai, que a faça se sentir uma menina, uma princesa delicada e quebradiça, uma boneca de louça valiosa e frágil, ela quer que ele puxe os cobertores até seu queixo no inverno e a surpreenda com uma casquinha de morango no verão, ela quer que ele lhe mande flores para todo o escritório ver, ela quer ser propriedade deste homem, quer ser sua nenezinha, sua tchutchuquinha, sua biliglubuquinhazinha, é isso que ela quer!

Mas ela encontra isso? Ela encontra um homem que a possa acalentar? Ela encontra um homem que re-al-men-te tenha autoridade?

Não.

Melancolicamente, a resposta é não.

Não é fácil, para uma mulher, encontrar um homem que tenha os predicados que um homem deve ter. Isso é tão difícil como, por exemplo, um time encontrar um zagueiro que tenha essa mesmíssima qualidade:

Autoridade.

Além de ser um zagueiro que tenha técnica, mas não enfeite; que tenha estatura, mas não seja um estafermo; que fale em campo sem perturbar os colegas de defesa; que represente o time sem chamar demais a atenção sobre si mesmo; que se imponha aos adversários sem ser violento; que seja discreto sem perder a eficiência; que saiba que seu objetivo pessoal passa pelo atingimento do objetivo do grupo.

Um zagueiro assim é raro. É ouro em pó.

David Coimbra, na página 50 do Zero Hora de hoje

thunder

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Sem retoque algum, do texto e da minha concordância com David.

Ricardo Amorim e os metrôs da China

Sabe quantos metrôs estão sendo construídos na China neste momento? Não estações de metrô, não linhas de metrô, mas sistemas inteiros, labirintos subterrâneos cavados sob cidades com mais de 5 milhões de habitantes, sabe quantos?

Oitenta.

Munido dessa informação, tente calcular quanto ferro os chineses terão de empregar em seus 80 novos sistemas de metrô. Toda uma Grande Muralha talvez pudesse ser erguida com esse ferro, não é mesmo?

Bem. Agora pense em quem vai fornecer o ferro para os chineses. Quem é o segundo maior produtor de ferro do mundo, abaixo, exatamente, da própria China?

É. O Brasil.

Tais informações, as colhi na palestra do Ricardo Amorim, proferida durante o feriado, no Plaza. Ricardo Amorim, você sabe, além de percuciente integrante da bancada do Manhattan Connection, foi um dos raros economistas a prever o estouro da crise mundial do ano passado.

Foi o que me levou ao Plaza. E não me decepcionei. A palestra foi recheada de conteúdo, valeu cada real da inscrição.

Ao apresentar dados como o número de metrôs em construção na China, Ricardo Amorim mostrou que, a partir da entrada dos chineses no comércio mundial, no ano 2000, o Brasil passou a crescer e não parou mais. Porque o Brasil tem o que os chineses querem: comida e matéria-prima, como o ferro das estruturas dos metrôs. Continuará crescendo enquanto os chineses estiverem consumindo, e isso vai durar largo tempo. Os índices do país também continuarão melhorando: mais emprego e, consequentemente, menos criminalidade; mais recursos para investir em infraestrutura; mais gente vivendo melhor; mais popularidade para o presidente. Tudo muito alvissareiro.

Houve apenas um setor que permaneceu intocado, na ampla análise do Ricardo Amorim: a educação básica. Ricardo Amorim não tocou no tema da educação básica porque neste tema ninguém toca por aqui. Há investimento em universidades e escolas técnicas, há investimento em usinas de energia, há investimento em pesquisa, tecnologia e transporte. Para as crianças, não há nada.

Lembro do velho Leonel Brizola na eleição de 1989. Repetia Brizola, com aquela sua fala cantada:

– As crianças... temos que salvar as crianças...

Vinte anos se passaram e, desde então, só ouvi um político falar nas crianças. Justamente um discípulo de Brizola, Cristovam Buarque. Quando ministro da Educação, Cristovam Buarque queria tratar do assunto com Lula. Não conseguia audiência. Reclamou:

– Presidente, só consigo falar com o senhor se calçar tênis e for jogar bola.

Lula rebateu:

– Se você não gosta de usar tênis, jogue descalço.

Buarque pediu demissão, candidatou-se a presidente e angariou fama de sujeito exótico, que só falava em educação. E assim tem sido. Você não ouve ninguém falar em educação básica, mas ouve o Ricardo Amorim e fica entusiasmado. O Brasil vai ganhar dinheiro com o pré-sal, o Brasil vai ganhar dinheiro vendendo a indianos e chineses, muita gente vai ganhar dinheiro no Brasil. Que bom. Haverá mais gente para dar esmola às crianças sujas debaixo dos semáforos do Brasil.

Coluna do estimadíssimo David Coimbra de hoje, na Zero Hora.

Rafa

sexta-feira, 2 de abril de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

overdose de bons textos

Jogadores de escova

Éóbvio que ver Big Brother emburrece. Já vi gente ficando ainda mais imbecil depois de assistir a uma edição. Logo, justificado está o meu preconceito contra esse programa de TV. Além do mais, sou um homem que ceva com carinho seus preconceitos. Portanto, alinho-me entre os que jamais assistiram e jamais assistirão a qualquer episódio de Big Brother não por falta de tempo; por gosto. Mesmo assim, compreendo as pessoas que espocaram rojões ou fizeram buzinaço festejando a vitória do “Gaúcho Dourado”, bem como compreendo as pessoas que emigraram do Piauí para acompanhar o julgamento do malfadado casal Nardoni, dias atrás. São pessoas com vidas desinteressantes. Quando elas morrerem, o obituário registrará:

“Torcia para o São José. Gostava de assar churrasco para a família aos domingos. Jogava bem escova”.

E é tudo.

É para essas pessoas que são feitos certos programas de TV e que se desenvolveu a teoria de que existe vida após a morte.

Eu, exatamente por não crer na vida após a morte, não assisto ao BBB. Não cultivo ilusões acerca da minha insignificância, conformo-me com ela, recolho-me à mesmice dos dias sem glória, sem mapas do tesouro, sem loiras douradas ansiosas para partilhar comigo noites de loucuras inenarráveis até o amanhecer. Não, não, sei bem que a vida não tem mistérios.

Porém, sempre há um porém, tive de me deter ante a entrevista da mãe do Gaúcho Dourado, indagorinha. Rose é seu nome, e ela se apresenta como “escritora, coreógrafa, astróloga, música e roteirista”, avisa que aceita posar nua para revistas masculinas, desde que em defesa de “alguma causa como os animais ou o meio ambiente”, e comemora a vitória do rebento porque, quando pensou em fazer um filho, queria que ele fosse “uma celebridade maravilhosa, não um zero à esquerda”.

Apesar do caráter elucidativo de todas essas informações prestadas pela astróloga, coreógrafa etc, não foi nenhuma delas que me despertou a atenção, e sim uma frase de diamante expelida em meio à entrevista. Era a mãe típica se manifestando acerca do filho. Desta forma:

“Dourado é um exemplo para o Brasil, só não gosto dos arrotos”.

É claro que toda mãe acha que o filho é um exemplo para o seu país. Posso imaginar a mãe de Freud divagando:

“Sig é um exemplo para a Áustria”.

Ou a de Beethoven:

“Lud é um exemplo para a Alemanha”.

Mas, por mais que açule a imaginação, não consigo vê-las fazendo qualquer ressalva a respeito dos gases emitidos pelos filhos em público. Por que isso? Talvez porque as mães germânicas não sejam tão sinceras quanto as brasileiras, talvez porque os filhos germânicos não sejam tão gastricamente liberais quanto os brasileiros, talvez por um tanto de tudo isso, mas acho que não, acho que é por outro motivo. É que a mãe do Gaúcho Dourado tem razão: ele é, realmente, um exemplo para o Brasil.

David Coimbra, na página 2 do Zero Hora de hoje

thunder

quinta-feira, 1 de abril de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Essa seção bem poderia ser mais do que o título "Colunistas que Recomendamos" representa. Com escritos do nível do texto abaixo, poderia tranquilamente ser titulada de "Fale por Mim, com muito mais classe e requinte". Afinal, falo de Luis Fernando Veríssimo.

O último círculo

Certos fatos são como os círculos concêntricos que se formam quando a proverbial pedra cai no proverbial lago. Têm um significado imediato e têm as conotações que se alastram, com significados cada vez maiores. Essa questão dos padres pedófilos, por exemplo. No seu centro, há o drama individual de um homem e sua compulsão doentia, e das suas vítimas. O significado seguinte é o da condição antinatural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia, que se vale da presunção de inocência que o voto de castidade lhe dá para praticar seu vício. Outro significado maior é o do poder que a religião tem sobre seus fiéis, para o bem ou para o mal, expressa na imagem do pastor guiando seu rebanho, mas sem nenhuma garantia do caráter do pastor. E, se você quiser continuar seguindo esses círculos sucessivos de implicações, fatalmente chegará à neurose sobre o sexo que está na base de toda ideia de clausura e renúncia às tentações da carne, e – o círculo seguinte – na base da nossa civilização. A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás, com suas regras de abstinência e sua sonegação à vista pública de qualquer parte do corpo feminino. O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora. Os padres pedófilos, com sua preferência por meninos, poderiam muito bem alegar que sucumbiram a demônios menores.

O último dos círculos irradiados tem a ver com a Igreja e seus costumes, como a demora em reconhecer seus erros. Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes, que destruíram a vida de tanta gente. Mas nada disto afetará sua majestade. Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência obscurantista a todas as revelações da ciência e à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas. Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrógrada na questão dos anticoncepcionais, mas um dia pedirá desculpas por isto também. E pela sua responsabilidade nas vidas destruídas. O que é eterno não precisa ter pressa.

Zero Hora de hoje.

Rafa

quarta-feira, 24 de março de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Os solitários

Ouvi, agora há pouco, que a depressão saiu do tabu para entrar na epidemia. O mundo está doente de depressão.

É verdade, nunca, como hoje, houve tanta gente falsamente depressiva, isso sim. Dão-se por depressivas; são, na verdade, infelizes.

Acontece que a vida de hoje é uma vida enfermiça, que leva as pessoas, com ou sem dinheiro, aos labirintos do desespero. Quem já foi muito pobre e hoje é um pouquinho menos pobre sabe que o dinheiro não lhe alterou o principal, a angústia vital...

Não vou discutir aqui, não tenho tempo para isso, os dois tipos clássicos de depressão: a externa, chamada de exógena ou social, e a interna, chamada de biológica ou endógena.

As duas, tenham o motivo deflagrador que tiver, as duas precisam de uma razão de ordem emocional para se manifestar no comportamento. É questão fechada. A depressão diagnosticada como biológica, resultante de um desajuste, ou de um “curto-circuito” neuro-hormonal, ainda assim, um dia, precisou de motivos emocionais para aparecer.

Como vivemos hoje? Isolados. Cercados de gente e não de amigos. As famílias sumiram, é pai para um lado, mãe para outro, desapareceram as tias, os avós, os múltiplos primos, os apoios familiares, os almoços ruidosos de fim de semana, tudo sumiu. Vizinhos não os conhecemos. O sujeito da porta ali da frente me parece chato, aborrecido, e assim eu para ele... Não nos conhecemos. E queres saber? Nem estamos interessados.

As grandes cidades viraram o inferno dos automóveis, pobres e ricos são iguais nas misérias do trânsito. Os bens materiais, que outrora conferiam insígnias de diferenciadores sociais, hoje unem a todos, ricos e pobres gozam dos mesmos confortos. E daí? Melhorou a vida emocional dos pobres? Nada.

Violência, desemprego, instabilidades financeiras geradas pelo consumismo, falta de rede de apoio social, vivemos em ilhas de isolamento, infelizes.

Amigos de infância? Se alguém ainda os tem, seus filhos não os terão mais tarde. Sumiram as infâncias coletivas, de bairro, vive-se hoje em gaiolas de desesperos: os condomínios, onde é impossível ser feliz...

Estão crescendo as loucuras, os vícios pesados, e aumentam os suicídios. Saída? As pessoas sabem bem das saídas, mas não lhes interessa aderir a uma vida de simplicidades, de desapegos... Afinal, o que vão pensar os outros? Podem pensar que somos infelizes, pobres. Melhor é que pensem que somos felizes e ricos. Ainda que sejamos da pior de todas as pobrezas, a da cabeça, e infelizes.

Por Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense de hoje.

Rafa

sexta-feira, 12 de março de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Um livro inútil

Na lista dos livros mais lidos, um deles me chateia: 100 Maneiras de Motivar as Pessoas. Nada mais inútil.

Ninguém motiva ninguém. Motivação é uma porta que só se abre por dentro, só a própria pessoa tem a chave para abri-la. Chego a ficar vermelho de dizer um truísmo desses, paciência.

O livro, todavia, tem razão de ser. De fato, o que mais há pelas esquinas são pessoas desnorteadas, sem um rumo gerado por um forte motivo. São pessoas que saem de casa para o trabalho e voltam do trabalho iguais. Bocejos, amuos, desânimos e nada que justifique essa exaustiva jornada de todos os dias senão o esquálido salário.

Jovens cansam pela apatia. Raros os que têm um projeto de vida. Hoje, o que mais querem, quando querem, é passar num concurso, isto é, amarrar na sombra o burrinho do comodismo. Só querem salário garantido no fim do mês, em troca, é claro, de nada ou de muito pouco. Ambição saudável, um sonho de vida? Isso é para otários, pensam os otários...

Casamentos sem ânimo, convivências insuportáveis, casais vazios, sem sonhos nem projetos. Hoje, sobre o que mais lutam os casais são por externidades do ter, nada do ser, tudo pelo aparecer.

Motivação é um fogo que crepita no ventre anímico da pessoa, ninguém o assopra senão a própria pessoa, é um fervor que faz de seres comuns seres especiais, vencedores. Não importa no que seja. O lutador motivado crê no objeto de sua luta, vive por ele, é feliz com ele.

São muito raras essas pessoas, daí que o livro 100 Maneiras de Motivar as Pessoas passa a ser justificado. Claro, de uma justificativa comercial, diante de tantos e tantos milhões de seres sem um propósito.

Ou você, leitora, conhece alguma pessoa, uma de suas amigas, por exemplo, que ande incendiada por um propósito? Lutar para casar com o fulano ou com o beltrano não vale, isso é coisinha de gente miúda.

Motivação tem que ser um incêndio interno de ordem pessoal e por algo que tenha um propósito da “eternidade”.

Na Argentina, andaram perguntando às gurias o que queriam ser na vida. Responderam que magras, puft. E os guris, o que responderiam? Talvez respondessem que “se dar bem”... uma porta aberta para todas as possibilidades sujas da vida.

Dentre todos os jovens profissionais que conheço, não conheço um que esteja a arder por um sonho. Ah, sim, e a sua motivação, qual é?

Luiz Carlos Prates, no Diário Catarinense de hoje!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

ETIMOLOGIA E MITOLOGIA

Mesmo quem desconhece a mitologia clássica praticamente não passará um dia de sua vida sem fazer várias referências a ela. Nosso idioma está repleto de palavras vindas do Grego e do Latim que evocam aquela notável tapeçaria de mitos e lendas que era a religião dos gregos e romanos; seus deuses, heróis e criaturas fantásticas atravessaram três mil anos e continuam presentes no léxico da maioria das língua ocidentais, muitas vezes escondidos em palavras com que convivemos inocentemente.

Quem que não enxerga essas relações simplesmente não sabe o que está perdendo, pois é sempre fascinante descobrir as histórias escondidas por trás de palavras aparentemente comuns. Por acaso nossa língua não fica mais interessante quando sabemos que o mês de janeiro tem esse nome porque era consagrado a Janus, um deus que tinha duas faces e que podia, portanto, olhar ao mesmo tempo o ano que terminava e o que estava começando? Ou que um museu é um prédio dedicado às Musas, divindades que presidiam as artes e o conhecimento? Ou que o cachorro do camundongo Mickey, o Pluto, tem o nome de um deus romano, em homenagem ao qual também foi batizado o controvertido planeta Plutão?

Néctar e ambrosia – Os deuses do Olimpo não consumiam os mesmos alimentos que os humanos, mas satisfaziam-se com duas substâncias imortais, inexistentes no mundo aqui de baixo: comiam a perfumada ambrosia e bebiam o néctar, uma bebida especial e revigorante. Ninguém sabe como era e que gosto tinha a lendária ambrosia – isto é, ninguém exceto a espertíssima Emília, personagem de Monteiro Lobato, que deu um jeito de roubar uma provinha numa das viagens que a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo fez à Grécia antiga; hoje a ambrosia desceu do Olimpo e tornou-se o nome trivial de um dos doces caseiros mais conhecidos da culinária luso-brasileira. Quanto ao néctar, cujo sabor original sempre será um mistério para nós, passou a ser usado para designar o suco concentrado das frutas ou o líquido que as abelhas colhem das flores para o fabrico do mel. De vez em quando ainda é empregado por pessoas sem imaginação como uma forma de elogiar um vinho ou um licor, no surrado lugar-comum “É um néctar dos deuses!” – felizmente esquecido no sótão das expressões abandonadas, na mesma prateleira empoeirada em que jazem “É de arromba!” ou “É da pontinha!”.

Atlas – Atlas era um dos titãs que lutou contra Zeus pelo controle do Olimpo. Derrotado, Zeus o condenou a ficar sustentando o céu sobre os ombros, mantendo-o assim separado da terra. Como os mitos gregos se relacionam uns com os outros, acabou acontecendo que Perseu expôs o pobre Atlas ao olhar petrificante da Medusa, transformando-o na cadeia de montanhas do mesmo nome, no norte da África. Quando o famoso cartógrafo Mercator, no século 16, colocou na capa de sua coleção de cartas geográficas a figura de Atlas com o globo terrestre nas costas, este nome associou-se para sempre a qualquer volume que contenha uma coleção de mapas.

Hipnotismo – Na Grécia, Hipnos era o deus do sono (chamado de Somnus, em Roma), que era o pai de Morfeu, o deus dos sonhos. Seu nome foi usado para designar aquele estado de sonolência que está associado à hipnose e, não por acaso, os medicamentos que induzem o sono são também denominados de hipnóticos. O nome de seu filho, por sua vez, está presente no radical de morfina.

Pânico – Este vocábulo vem de Pan, aquele deus híbrido com pequenos chifres na cabeça e com corpo de bode da cintura para baixo, que vivia nos bosques e nos campos correndo alegremente atrás das ninfas. Os gregos atribuíam a ele a forte sensação de medo que acometia os que passavam por lugares desertos, em que o menor ruído poderia indicar que o deus estava ali à espreita. Hoje o termo indica aquele medo incontrolável e irracional que às vezes nos ataca e nos invade com uma vontade irresistível de fugir. Esse sentimento difuso tinha uma variante feminina, a ninfolepsia, uma espécie de excitação frenética que se apossava de todo aquele que, em algum lugar isolado, numa hora morta, via-se rodeado pelas ninfas, mocinhas danadas e sensuais.

Sirene – O nome é uma variação de sereia, monstruosa ave com cabeça de mulher que Homero descreve na Odisseia. As sereias viviam numa pequena ilha no meio do mar e usavam seu canto para atrair os navegantes, para devorá-los. Só bem mais tarde a mitologia celta imortalizou a figura popular da sereia boazinha, metade mulher, metade peixe, bem diferente das terríveis criaturas que Ulisses enfrentou. Em Inglês, o mesmo termo siren é usado para a entidade mitológica e para o som agudo e estridente das ambulâncias e viaturas policiais.

Cláudio Moreno, na Zero Hora de hoje

Rafa

sábado, 9 de janeiro de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Escanhoar-se ou não escanhoar-se

Um homem fazendo a barba na frente do espelho está num momento crucial da sua existência. É um momento que se repete todas as manhãs, tão banal que ele mesmo não se dá conta do seu significado maior. Mas todas as manhãs o homem se depara com uma escolha que pode mudar sua vida. Deixo ou não deixo crescer a barba?

A barba quer existir. Todos os dias ela tenta. Todos os dias aparecem as pontas dos fios que, se o homem deixar, crescerão, ocuparão o seu rosto e mudarão seu visual e possivelmente sua personalidade e seu destino. E tudo depende da crucial escolha de todas as manhãs: rapar ou não rapar? Escanhoar-se ou não escanhoar-se? Ser ou não ser um homem com barba? E com que tipo de barba?

A escolha do homem pode ser apenas experimentar. Ele pensa: não faço a barba por alguns dias, vejo como ela cresce e como é que fica, depois decido que tipo de barba eu quero. Posso deixá-la crescer desimpedida, sem retoques, ou posso guia-la, aparando aqui, desbastando ali, como um artista redesenhando o próprio rosto. É óbvio que Deus e a Natureza querem que eu tenha uma barba, senão ela não insistiria tanto em crescer, mas a decisão de como ela vai ser – que tamanho (Robinson Crusoé ou Lula?), que estilo (Renascentista, intelectual desleixado, etc) – depende unicamente de mim. A genética, a biologia, o meio ambiente e o saldo bancário determinam o que eu sou, mas da decoração do meu rosto cuido eu.

É comum você encontrar barbas tão estranhas que deixam a dúvida: como será que seu portador se imagina, para ter uma barba assim? Que possível autoimagem ou critério estético tem um homem cuja barba se resume num tufo abaixo do lábio inferior? Ou num bigode fino que desce pelos lados da boca em tiras que se reencontram na ponta do queixo? Você pode aceitar uma barba tipo Dom Pedro II como apenas uma homenagem patriótica, mas aquele seu pacato amigo que um dia aparece com o bigode do chanceler von Bismarck certamente decidiu mostrar ao mundo que não é nada do que parecia ser, escanhoado. Ou era mas não é mais.

Alguns bigodes hoje são inconcebíveis. Depois de Hitler, ninguém mais quis ter o bigode do Carlitos. E se você decidiu ter o bigode do Nietzsche para dar uma ideia de vigor físico e mental, saiba que o projeto levará muitos anos. Quando o bigode finalmente atingir a dimensão desejada para impressionar, estará totalmente branco, e a única impressão que você dará será a de um bom velhinho, em vez de um leão da filosofia. Um bigode como o do Nietzsche precisa ser começado na infância.

Você está na frente do espelho. Uma manhã como qualquer outra. Aparelho de barbear ou barbeador elétrico na mão. E de repente você decide: vou mudar de cara. Está implícito na sua decisão que você quer ser outro, com outra vida, mas por enquanto só o que você pensa é: já que a barba insiste tanto em crescer, que cresça. Que apareça. Dou permissão. Depois escolherei a cara que quero ter. Mas no seu subconsciente você já está escolhendo. Um cavanhaque. Sim, um cavanhaque. Talvez um bigode com as pontas reviradas. Ou então... Sim, Mefistófeles. É isso. Uma barba indisfarçavelmente demoníaca. Vamos ver que vida vem junto.

– Querido, você não fez a barba hoje?

– Não. Decidi dar uma folga.

– Fica um aspecto tão sujo...

Você sorri. Ela não sabe o que a espera.

Luís Fernando Veríssimo, no Zero Hora


thunder, barbudo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O princípio da incerteza

O professor virou-se e viu que a Sandrinha não estava escrevendo. Todos na aula copiavam o que o professor tinha escrito no quadro-negro, menos a Sandrinha. A Sandrinha estava dobrando e alisando um pedaço de papel.
– Dona Sandra, o que a senhora está fazendo? – perguntou o professor.
– Um aviãozinho, professor.
– Dona Sandra, eu pedi para copiarem o que eu estou escrevendo no quadro-negro sobre a teoria da incerteza de Heisenberg.
– Eu sei, professor. Mas eu estou preparando uma experiência prática sobre o mesmo assunto.
– Nossa aula hoje é sobre física quântica, dona Sandra.
– A minha experiência também.
O professor tinha desenvolvido uma tática para lidar com a Sandrinha. Para não explodir, contava até três. Desta vez contou até seis. Depois perguntou:
– E que a sua experiência tem a ver com o princípio da incerteza de Heisenberg, dona Sandra?
– Quando o aviãozinho ficar pronto, vou atirar para o alto, sem saber onde ele vai cair. Se bater em alguém, ou cair próximo de alguém, é a pessoa que eu vou namorar neste trimestre.
Por um momento, o único ruído ouvido na sala foi o do riso abafado. Desta vez, pensaram todos, a Sandrinha conseguiria. O professor perderia o controle.
Atiraria a Sandrinha pela janela. Ou ele se atiraria pela janela. De qualquer maneira, haveria uma explosão. Mas o professor manteve o controle, depois de contar até dez.
– E se cair perto de uma pessoa do sexo feminino, dona Sandra?
– Não tenho preconceito, professor.
– Só não entendi o que seu aviãozinho tem a ver com a teoria de Heisenberg.
– A incerteza. Ninguém sabe onde ele vai cair.
– Não, dona Sandra. É muito mais complexo do que isso. É...
– A teoria não diz que a ação humana interfere na observação das partículas subatômicas? Que por isso a medição dos seus movimentos é sempre incerta? Pois eu posso direcionar meu aviãozinho para um lado que me interessa. Ele vai dar voltas no ar, mas sua trajetória não será inteiramente aleatória. Minha vontade vai influir no seu destino. Pronto. Uma aula prática, professor.
O professor fechou os olhos. Um, dois, três, quatro...
– Faça o que quiser, dona Sandra. Vou continuar dando a minha aula.
Voltou para o quadro-negro e continuou a escrever. Dali a pouco, ouviu uma agitação às suas costas. O aviãozinho da Sandrinha tinha decolado. Virou-se a tempo de receber o aviãozinho no peito. E ouvir a voz da Sandrinha:
– O senhor é casado, professor?

Luís Fernando Veríssimo, no Zero Hora de ontem

thunder