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sábado, 18 de dezembro de 2010

SOBRE A VÍRGULA

A vírgula pode ser uma pausa... ou não.

Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Campanha dos 100 anos da Associação Brasileira de Imprensa - 2008

Rafa

terça-feira, 26 de outubro de 2010

INDO

Desde sempre eu possuo o hábito de imaginar como se sente a pessoa que encontra-se em fase de transição para a velhice, se é que essa fase existe. Creio que existe, mas é praticamente imperceptível. Quando se vê, se está do lado de lá. Nada melhor do que o humor sutil de Luís Fernando Veríssimo nessa crônica pra ilustrar esse fato.

"Curiosa palavra. Idoso. O que acumulou idade. Ou que a esbanja (como gostoso ou dengoso)

O primeiro sinal foi quando uma senhora se levantou para me dar seu lugar, num ônibus. Ué, pensei. (Não sei se foi “Ué”. Pode ter sido “Uai”, mas estranhei). O que provocara aquele gesto? O que levara a mulher a me oferecer seu lugar? Era a primeira vez que me acontecia aquilo. Alguma coisa ela vira em mim que a convencera que eu não deveria ficar de pé. O que seria? Recusei a oferta.“Não, não. Eu estou bem. Obrigado.” Mas fiquei intrigado. De pé e intrigado.

A partir daí, passei a notar que as pessoas me tratavam de um modo diferente. Não era raro alguém estender a mão para me ajudar a descer de um carro, por exemplo. Por que aquela súbita mudança de comportamento das pessoas em relação a mim, já que eu continuava sendo o mesmo de sempre? Em mim nada mudara. Bem, algumas coisas sim, mas detalhes, nada que justificasse o estranho procedimento dos outros. E o que quer que fosse que o provocara, o novo tratamento não era de repulsa. Pelo contrário, era de uma amabilidade inédita. Por quê?

Cheguei a desenvolver algumas teorias. As pessoas teriam ouvido algum boato a meu respeito. Uma herança recebida, um tesouro descoberto, um bilhete premiado, algo que tornaria eventualmente vantajoso me tratarem bem. Mas isso não explicava a senhora do ônibus, uma desconhecida, sem qualquer expectativa de um dia ser recompensada pela sua gentileza. Ou os repetidos gestos de deferência de outros desconhecidos – até de bilheteiros, nos cinemas, me perguntando, por alguma razão, se eu queria um ingresso com desconto. O fato é que todos agiam como se soubessem alguma coisa a meu respeito que eu mesmo desconhecia.

Talvez... Seria isso? Talvez, como naquelas fotos em que alguém ergue dois dedos atrás da sua cabeça e você fica com chifres sem saber, todos vissem sobre a minha cabeça algo que eu não via, um halo, um sinal, mostrando que eu era um iluminado ou um condenado. De uma hora para outra eu me transformara misteriosamente num distinguido pelo alto ou pelo destino, objeto de reverência ou comiseração. Ou, claro, de um grande mal-entendido. Era isso. Só podia ser isso. Eu não me tornara nem mais rico nem mais simpático. Me tornara especial aos olhos dos outros, e o que eu tomava como gentileza era apenas espanto. Ou pena.

Finalmente, na semana passada, tudo se esclareceu. Cheguei ao Rio, e o táxi que me levava do aeroporto para o hotel pifou na saída do Túnel Rebouças e parou na ensolarada Lagoa. O motorista pediu ajuda a outro táxi pelo rádio e enfatizou a urgência da situação: “Estou aqui com um idoso embaixo do sol...”. Olhei em volta. Idoso? Onde estava o idoso? E então tive a revelação. O idoso era eu! Agora tudo fazia sentido. O estranho procedimento dos outros estava explicado. Eu tinha me transformado num idoso e recebia o tratamento adequado. Virar idoso é o que acontece quando se vive um certo tempo, eu apenas não tinha me dado conta. Só faltava alguém dizer a palavra, sem a menor possibilidade de estar se referindo a outra pessoa.

Curiosa palavra. Idoso. O que acumulou idade. Também tem o sentido de quem se apega à idade. Ou que a esbanja (como gostoso ou dengoso). Se é que não significa alguém que está indo, alguém em processo de ida. Em contraste com os que ficam, os ficosos...

Preciso começar a agir como um idoso. Dizem que, entre eles, idosos não falam em quem chega à velhice como alguém que está à beira do túmulo. Dizem que está na zona do rebaixamento. Vou ter que aprender o jargão da categoria."

Rafa

segunda-feira, 5 de julho de 2010

PICASSO E GOYA SOB O SOL

da série: 'Diálogos Impossíveis'

As Meninas - Diego Velásquez, 1656 - Museu do Prado - Madri

Uma tarde, depois de um bom almoço, estirado numa cadeira preguiçosa no terraço da sua casa na Côte DAzur, Picasso adormece e sonha que está no museu do Prado, em Madri, na frente do quadro As Meninas, do Velázquez, e que ao seu lado está alguém que a princípio ele não reconhece. Ele e o outro são as únicas pessoas no grande salão do museu onde a pintura de Velázquez é o único quadro. A pintura de Velázquez é o único quadro no museu inteiro.

Picasso julga reconhecer o homem ao seu lado, mas não tem certeza de que seja quem está pensando.

– De onde eu conheço o senhor?

– Talvez dos meus autorretratos...

– Francisco Goya!

– Em pessoa. Ou o que resta dela. E o senhor é...

– Pablo Picasso.

– Foi o que eu desconfiei. Mas nos seus autorretratos o senhor nem sempre é reconhecível...

– É que eu nunca aceitei que os dois olhos não pudessem ser do mesmo lado do nariz.

– Mas eu deveria ter lhe reconhecido pelas fotografias. O senhor é uma das pessoas mais fotografadas do mundo. Eu o invejo.

– Por ser tão fotografado?

– Não. Por poder pintar os dois olhos no mesmo lado do nariz. E a boca onde quiser. E os pés no lugar das orelhas. Eu não tive essa liberdade. Fui um revolucionário na minha arte, mas não o bastante. Éramos reféns da anatomia. O senhor se libertou disso.

– Me diga, o que o senhor acha dessa ideia de esvaziar o Prado e deixar só As Meninas, do Velázquez em exposição?

– Acho justo. É uma maneira de dizer que, depois de Velázquez, toda a pintura é supérflua.

– Mas as suas pinturas negras também foram banidas do museu, com todas as outras..

– Está certo. Eu não as pintei para serem expostas. Foram pintadas nas paredes da minha casa, para só serem vistas por mim. São expressões da minha misantropia, do meu asco pela vida, da minha loucura final. Quem quer ver a sua degradação exposta em público?

– Elas são as pinturas mais poderosas e inquietantes jamais feitas. E olha que eu não sou de elogiar a concorrência.

– O seu Guernica não fica atrás...

– Obrigado, mas eu acho Guernica uma ode à inutilidade da arte. Foi elogiado como um libelo contra a estupidez humana, mas não impediu que outras Guernicas acontecessem, e a estupidez humana prevalecesse. Guernica foi apenas um aperitivo para Hiroshima.

– Somos supérfluos de várias maneiras, além da que decretou o Prado. Todo artista é supérfluo.

– Menos o Velázquez.

– Menos o Velázsquez.

– Sabe, senhor Goya, muita gente já nos comparou, e notou como nossas trajetórias são opostas. O senhor começou como pintor da corte, retratando a vida alegre da aristocracia na Madri dos Bourbons e acabou doente, num exílio amargo entre pinturas negras, sozinho e esquecido. Sua trajetória foi da frivolidade para as trevas. Eu, ao contrário, fui ficando cada vez mais mundano, cada vez mais frívolo. Comecei como um artista de vanguarda incompreendido e acabei como uma celebridade internacional, uma das pessoas mais fotografadas do mundo, fazendo arte instantânea como criança. Apesar de velho, ainda tenho saúde e tesão pela vida. Agora mesmo, acabo de comer um peixe maravilhoso feito pela minha atual mulher. A sétima, se não perdi a conta.

– Por sinal, senhor Picasso, obrigado por sonhar comigo na sua sesta. A única maneira que eu tenho de voltar à vida, nem que seja só para rever As Meninas, é na imaginação dos outros. E, não sei se o senhor notou, no seu sonho eu não sou surdo, como fui durante grande parte da minha vida. Muito obrigado.

– Olhe, senhor Goya! Que estranha luminosidade emana do quadro do Velázquez! O senhor não está vendo?

– Não, eu...

– Parece o sol. É a luz de um sol!

Picasso acorda com o sol na sua cara. Pensa em chamar a mulher para lhe trazer um chapéu, mas não se lembra do seu nome.

Verissimo, como sempre fantástico, no Zero Hora de ontem

thunder

sábado, 9 de janeiro de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Escanhoar-se ou não escanhoar-se

Um homem fazendo a barba na frente do espelho está num momento crucial da sua existência. É um momento que se repete todas as manhãs, tão banal que ele mesmo não se dá conta do seu significado maior. Mas todas as manhãs o homem se depara com uma escolha que pode mudar sua vida. Deixo ou não deixo crescer a barba?

A barba quer existir. Todos os dias ela tenta. Todos os dias aparecem as pontas dos fios que, se o homem deixar, crescerão, ocuparão o seu rosto e mudarão seu visual e possivelmente sua personalidade e seu destino. E tudo depende da crucial escolha de todas as manhãs: rapar ou não rapar? Escanhoar-se ou não escanhoar-se? Ser ou não ser um homem com barba? E com que tipo de barba?

A escolha do homem pode ser apenas experimentar. Ele pensa: não faço a barba por alguns dias, vejo como ela cresce e como é que fica, depois decido que tipo de barba eu quero. Posso deixá-la crescer desimpedida, sem retoques, ou posso guia-la, aparando aqui, desbastando ali, como um artista redesenhando o próprio rosto. É óbvio que Deus e a Natureza querem que eu tenha uma barba, senão ela não insistiria tanto em crescer, mas a decisão de como ela vai ser – que tamanho (Robinson Crusoé ou Lula?), que estilo (Renascentista, intelectual desleixado, etc) – depende unicamente de mim. A genética, a biologia, o meio ambiente e o saldo bancário determinam o que eu sou, mas da decoração do meu rosto cuido eu.

É comum você encontrar barbas tão estranhas que deixam a dúvida: como será que seu portador se imagina, para ter uma barba assim? Que possível autoimagem ou critério estético tem um homem cuja barba se resume num tufo abaixo do lábio inferior? Ou num bigode fino que desce pelos lados da boca em tiras que se reencontram na ponta do queixo? Você pode aceitar uma barba tipo Dom Pedro II como apenas uma homenagem patriótica, mas aquele seu pacato amigo que um dia aparece com o bigode do chanceler von Bismarck certamente decidiu mostrar ao mundo que não é nada do que parecia ser, escanhoado. Ou era mas não é mais.

Alguns bigodes hoje são inconcebíveis. Depois de Hitler, ninguém mais quis ter o bigode do Carlitos. E se você decidiu ter o bigode do Nietzsche para dar uma ideia de vigor físico e mental, saiba que o projeto levará muitos anos. Quando o bigode finalmente atingir a dimensão desejada para impressionar, estará totalmente branco, e a única impressão que você dará será a de um bom velhinho, em vez de um leão da filosofia. Um bigode como o do Nietzsche precisa ser começado na infância.

Você está na frente do espelho. Uma manhã como qualquer outra. Aparelho de barbear ou barbeador elétrico na mão. E de repente você decide: vou mudar de cara. Está implícito na sua decisão que você quer ser outro, com outra vida, mas por enquanto só o que você pensa é: já que a barba insiste tanto em crescer, que cresça. Que apareça. Dou permissão. Depois escolherei a cara que quero ter. Mas no seu subconsciente você já está escolhendo. Um cavanhaque. Sim, um cavanhaque. Talvez um bigode com as pontas reviradas. Ou então... Sim, Mefistófeles. É isso. Uma barba indisfarçavelmente demoníaca. Vamos ver que vida vem junto.

– Querido, você não fez a barba hoje?

– Não. Decidi dar uma folga.

– Fica um aspecto tão sujo...

Você sorri. Ela não sabe o que a espera.

Luís Fernando Veríssimo, no Zero Hora


thunder, barbudo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Quando os chatos somos nós


Você conhece um chato. Ou dois. Ou meia-dúzia. E até gosta deles, viraram figuras folclóricas na sua vida. Talvez seja um cunhado, um amigo de um amigo, um colega de trabalho. Os chatos são bem intencionados, não se pode negar. E é justamente essa boa intenção fora da medida que faz deles... chatos. O chato nada mais é que um exagerado. Ele é prestativo demais, ele é piadista demais, ele leva muito tempo para contar algo que lhe aconteceu, ele fica hooooras no telefone, ele se leva a sério além do razoável, ele ocupa o tempo dos outros com histórias que não são interessantes. O chato é, basicamente, um cara (ou uma mulher) sem timing.


Estava pensando nisso quando escutei alguém citando uma das coisas mais chatas que existe. Tive que concordar: colocar um filho pequeno no telefone pra falar com a dinda, com a vovó, com o titio, é muito chato. A gente ama aquela criança – talvez seja até o nosso filho! – mas ao telefone, esquece. Tentamos entabular um diálogo minimamente inteligível e nada rola. Ou ele não fala nada que se compreenda, ou não abre o bico, e só nos resta ficar idiotizados do outro lado da linha.

Todo mundo sabe que isso é chato. Mas todo mundo que já teve um filho comete essa mesma chatice com os outros. Por que? Porque pai e mãe de primeira viagem são chatos por natureza. Ninguém escapa. Se não for chato, será considerado um sem-coração. Todos irão apontar: olha lá, aquele ali esconde o filho. Põe ele no telefone!

Outra chatice é mostrar 3.487 fotos do bebê. Dá nos nervos quando o filho não é nosso. Todos os bebês são iguais, menos para seus pais. Seja bem sincero: dá pra aguentar ver foto de bebê pelo celular? Basta perguntar educadamente pra alguém: e seu filhinho, vai bem? Pronto. Num segundo o celular ou iPhone será sacado e apontado direto para seus olhos: veja você mesmo.

A gente sabe que é chato, mas toleramos com sorrisos parcialmente sinceros porque faremos a mesma coisa quando chegar a nossa vez – ou já fizemos um dia. Se você passou dessa fase, segure a onda e compreenda os que ainda não passaram. Nada de reclamar. Aqui se faz, aqui se paga.

Outras chatices? Quando alguém pergunta: lembra de mim? Se está perguntando, é porque a chance é remota. Mas já não fizemos isso diante de alguém que gostaríamos muuuuito que lembrasse? E esticar as letras das palavras quando se está escrevendo? E quando a gente começa uma frase com “adivinha”. Adivinha pra onde eu vou nas próximas férias. Adivinha quem me convidou pra jantar. Adivinha com quem eu sonhei hoje.

Falando em sonho, tem coisa mais chata do que ouvir o sonho dos outros? Mas você já contou os seus. Váááárias vezes.

Agora adivinha qual o próximo exemplo que vou dar (rsrs). Precisamos mesmo colocar risadas entre parênteses para que os outros entendam nossas piadinhas cretinas?

Alguns menos, outros mais, chatos somos todos.

Martha Medeiros, no Zero Hora de 13 de dezembro

Rafa

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Dramas da evolução

A sua vida podia ser diferente. Olhe bem para a sua mulher. Observe a carne pendente sob os braços dela. Veja com que sofreguidão ela come aquele quindim. Ela está engordando a cada dia.

Pense nas manhãs em que ela está inspirada para falar. Ela fala. Falafalafalafala. E mais: fala.

Lembre-se das vezes em que ela o obrigou a ir a aniversários de crianças, a jantares na casa da tia-avó dela. Lembre-se dos Natais! Como você sofre a cada Natal, tendo que contentar a sua família e a família dela.

Não precisava ser assim. Tornou-se assim por uma opção evolutiva. Quer prova? Recuemos um tantinho no tempo. Dois milhões de anos. Naquela época, um hominídeo de um metro e trinta de altura zanzava serelepe pelas savanas da África. Era o homo habilis, seu antepassado. O homo habilis andava sobre duas pernas, como você, e tinha um cérebro bem maior do que os cérebros de todos os outros animais, mas não tão grande quanto o seu. Para falar, como você fala, para ler a coluna do Wianey Carlet, como você lê, e para inventar instrumentos úteis, como o google, o controle remoto e o biquíni com lacinho, o homem precisava de um cérebro maior.

Foi neste ponto que a evolução chegou a um impasse.

Aconteceu o seguinte:

A abertura pela qual os nenês passam ao nascer, situada, como sabemos, no entrepernas das fêmeas da espécie, essa abertura tem de ser maior do que a cabeça do recém-nascido, senão o recém-nascido entala, o que é chato. Com o passar dos milhões de anos sobre a Terra, o cérebro do ser humano foi aumentando e, para acomodá-lo, a cabeça também foi aumentando. Logo, a abertura por onde passam os nenês também deveria aumentar. Só que, se aumentasse até ficar do tamanho de um cérebro adulto moderno, como, por exemplo, o cérebro da Carla Perez, a abertura por onde passam os nenês teria que se alargar muito. O afastamento da pélvis prejudicaria a nossa elegante postura ereta, teríamos de nos curvar. Em resumo, cair de quatro.

Eis o drama: para dispor um cérebro grande, capaz de bolar o piercing no umbigo, o homem teria de deixar de ser bípede. Mas, se deixasse de ser bípede, não poderia manusear instrumentos ou digitar o nome da Megan Fox no youtube.

E agora?

A Natureza resolveu o problema de uma forma muito engenhosa. Assim: ao nascer, o cérebro dos humanos ainda não tem o tamanho padrão. Logo, a cabeça do nenê é pequena, e passa por onde há de passar. Mas, nos anos seguintes, o cérebro cresce como o de nenhum outro animal, torna-se quatro vezes maior do que o volume que tinha no dia do nascimento. A desvantagem deste sistema é que um nenê bípede, que gasta a maior parcela da sua energia no crescimento do cérebro, não nasce com a desenvoltura de um quadrúpede. Um cavalo, tipo o Tragueado ou o Camelo Voador, que correram no Cristal esta semana, um cavalo como eles nasce, equilibra-se e sai trotando com a energia de um... bem, de um cavalo. Já um nenê humano, como o meu Pocolino, necessita de pelo menos seis ou sete anos de cuidados, atenções e mamadeira quentinha.

Foi uma troca, portanto. Uma escolha da Evolução. Que acarretou outra questão: como ficou tão complicado criar seus filhotes, a fêmea humana teve de requisitar a ajuda do macho. Para convencer o macho a auxiliá-la, ela lhe ofereceu o que ele queria: sexo. A fêmea humana, desta maneira, é a única que tem orgasmos o mês inteiro, desde que competentemente estimulada, é claro; é também a única que pode copular todos os dias, sem a necessidade de entrar no cio; e ainda é a única que usa minissaia e botas. Tudo isso para que o macho não se aventure por aí com outras fêmeas, mantenha-se com ela e ajude a cuidar dos pocolinos.

Logo, sua mulher aí ao lado, falando sem parar e engordando inexoravelmente, ela não tinha de estar aí. Você poderia ter um cérebro menor e viver caçando, pescando e coletando alegremente com seus amigos, trocando de fêmeas como quem troca de caverna, divertindo-se pela velha e aprazível savana africana. Mas, não. Você quis evoluir. Agora está em casa, tendo que aguentar o matrimônio e o campeonato de pontos corridos. Bem feito pra você.

David Coimbra, impagável, na página 39 do Zero Hora de hoje

thunder

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Quero ser influenciado

Thomas Jefferson passou boa parte da vida tentando pagar dívidas. Vendia terras, vendia escravos, vendia quase tudo que tinha, em vão. Não conseguia saciar os credores. Um dia, decidiu vender o que lhe era mais caro: seus livros. Jefferson havia acumulado a maior biblioteca dos Estados Unidos na época, os albores do século 19. Não pareceria muito grande hoje, com seus cerca de 7 mil volumes. Naquele tempo de tipografias, porém, imprimia-se menos. Além disso, a biblioteca de Jefferson realçava-se pela qualidade das obras. Era organizada segundo os preceitos de Francis Bacon, que dividiu o pensamento em três áreas: a memória, a sabedoria e a imaginação. Ou História, Filosofia e Literatura.

Jefferson ofereceu seus livros ao Congresso Americano, que os comprou e o salvou da falência. Foi esta a base da Biblioteca do Congresso, hoje a maior do mundo, com 120 milhões de obras. Se as estantes da Biblioteca do Congresso fossem colocadas lado a lado, se estenderiam por 850 quilômetros. Você poderia ir de Porto Alegre a Punta del Este caminhando sobre as estantes da Biblioteca do Congresso. E ela não para de crescer – a cada dia, o Congresso adquire cerca de 7 mil exemplares. Uma biblioteca de Jefferson por dia. Até alguns da autoria do degas aqui podem ser encontrados lá.

Não há como não sentir vertigem em um lugar desses. Aqueles livros, milhões deles, e a certeza de que nem se vivendo 10 vidas seria possível lê-los todos. Em um livro que conta A Conturbada História das Bibliotecas, o autor, Matthew Battles, ele próprio bibliotecário, reproduz um texto em que o personagem experimenta tal sensação. Ele percorre as estantes da Biblioteca de Harvard, a quarta maior do mundo. E o que lhe sucede é o seguinte:

“À noite, ele saía vasculhando as estantes da biblioteca, puxando livros a esmo daquelas milhares de estantes e lendo-os feito um doido. Pensar naquelas estantes intermináveis repletas de livros deixava-o ensandecido – quanto mais lia, mais inumeráveis pareciam ser aqueles que jamais conseguiria ler. Lia insanamente, às centenas, aos milhares, às dezenas de milhares. A ideia de que outros livros estavam aguardando por ele atormentava-lhe o coração. Imaginava-se rasgando as entranhas de um livro como se estripa um frango”.

Foi como me senti quando pisei na Feira do Livro pela primeira vez. Já tinha estado na Biblioteca Pública, já tinha frequentado grandes livrarias, mas aquilo era diferente. O livro ali, no chão da Praça, sob as copas das árvores, em barracas de quermesse, não era sisudo como o livro das bibliotecas, que é manuseado em silêncio de hospital. Não. Na Feira, o livro é como pipoca e picolé. É uma festa. Mas havia tantos... Impossível ler todos. Em quais, então, deveria concentrar meu limitado poder econômico e meu tempo de leitura? Procurei indicações. Uma das mais valiosas foi a lista dos mais comprados. Ler o que os outros estavam lendo podia, no mínimo, render uma crítica ácida ao gosto dos outros. Agora a Feira não faz mais a lista dos mais comprados. E por quê? Para não influenciar o público, alegam os organizadores. Mas não era essa a ideia? Não é para servir de parâmetro? História? Filosofia? Ou literatura? Autores nacionais ou estrangeiros? O que é que o povo está lendo? Quero saber. Influenciem-me. Quero ser influenciado.

David Coimbra, na página 2 do ZeroHora de hoje

thunder

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

CANTIGA DE ACORDAR

Noite dos pais pegarem cinema, o avô bota o neto na cama. Apaga a luz, deixa só a do abajur, dizendo que vai contar uma história, mas não consegue lembrar de nenhuma nem inventar coisa alguma, então cantarola: atirei o pau no gato-tô...
_ Conhece esta cantiga, menino?
_ Conheço, vô. Só não entendo por que atirar o pau no gato. Que que o gato fez?
_ Não sei, nem conheço o tal gato!
_ Então pra que atirar pau nele?
O vô suspira e encontra um caminho no verso seguinte:
_ Mas o gato-tô não morreu-reu-reu!
_ Então, vô, quer dizer que atiraram um pau tão forte que era pro gato morrer?
O vô volta a suspirar, dizendo pois é:
_ Tanto que Dona Chica-cá 'dmirou-se-sê, do berrô, do berrô que o gato deu!
_ Mas gato berra, vô?
O vô pensa no que falou a mãe, não se deve ensinar nada errado para criança, então diz que gato solta, sim, uma espécie de berro quando é atacado:
_ A onça urra, o gato berra.
O neto declama:
_ Onça urra, cavalo relincha, boi muge, ovelha bale, cabrito berra... e gato também berra, vô?
O avô promete que amanhã vai pesquisar na internet, não pensava que uma simples cantiga de ninar fosse dar tanta confusão.
_ Mas não é cantiga de ninar, vô, é de matar.
Ficam em silêncio, até o neto perguntar baixinho:
_ A Dona Chica-cá é gaga, vô?
O vô diz que não, isso é só pra cantiga ficar mais divertida, mais...
_ Mais boba, né. A mãe diz que as crianças do tempo dela eram bobas comparadas com as crianças de hoje.
_ É, é - o vô concorda fime - As crianças daquele tempo ouviam uma cantiga de ninar e ninavam, enquanto as de hoje...
O neto fala mais baixinho:
_ Mas o pai diz que não é pra gente engolir nada que não goste...
O vô silencia olhando o abajur, mas o abajur não ajuda em nada, então diz que vai mudar a cantiga:
_ Atirei carne pro gato-tô...
_ Melhor jogar ração, vô, senão o gato faz cocô fedido.
_ Ora - o vô fala irritado - Gato é felino, veio das matas, onde ainda existe a Jaguatirica, comendo carne, sim senhor! Isso de criar bicho com ração é coisa de gente de apartamento, que não tem terra pro bicho fazer cocô, gente que nem sabe se melancia dá em trepadeira ou em árvore.
_ Nem uma coisa nem outra, né, vô, melancia esparrama pelo chão que nem batata.
_ E criança devia dormir com a mão no coração em vez de ficar discutindo!
_ Eu tava conversando, vô, quem tá discutindo é o senhor!
O vô suspira, apaga o abajur, fala na escuridão:
_ Você tem razão, eu sou um vô bobo.
A escuridão parece concordar até o menino falar que não:
_ Você é meu melhor vô.
Depois de um tempo, o vô fala com a voz molhada - Boa noite, rapaz! - e só depois de fexhar a porta é que lembra:
_ Mas o outro avô dele já morreu!...
Abre uma fresta da porta e olha o neto sorrindo de olhos fechados.

Domingos Pellegrini, no Caderno G da Gazeta do Povo de 14/06/2009

thunder

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

LIBERDADE DE IMPRENSA

A Associação Nacional de Jornais está comemorando 30 anos de existência e denunciou 31 casos de violação à liberdade de imprensa no Brasil. Devem ser casos na maioria recentes, uma vez que, no período da ditadura, mesmo nos últimos anos do regime totalitário, simplesmente não havia liberdade de imprensa e não havia o que violentar.

Tenho alguns anos nas costas como profissional. Eu próprio já fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional e na extinta Lei de Imprensa. Sou dos poucos jornalistas que, além de ser proibido de escrever certas matérias, foi condenado e cumpriu pena. Apesar disso, sempre fiz uma distinção quando se fala em liberdade de imprensa.

Uma pessoa ou entidade que processe um jornal ou um jornalista, uma vez que se sentiu prejudicado por uma informação ou comentário, tem o direito de recorrer à Justiça. Afinal, vivemos ou pretendemos viver num Estado de Direito. Temos os códigos Penal e Civil, que regulam a matéria, sem necessidade de uma lei específica. Cabe à Justiça administrar este Estado de Direito, que inclui a prerrogativa de um cidadão recorrer toda vez que se sinta difamado, caluniado etc. É evidente que cabem recursos no trânsito da Justiça, uma corte superior por confirmar ou reformar a sentença anterior. Elementar.

Acho exagerado o fervor de certos setores da imprensa em reclamar de processos ou de sentenças da Justiça, considerando violação de uma liberdade a qual todos têm direito, desde que não fira direito de terceiros.

Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação.

Coluna de hoje de Carlos Heitor Cony

thunder

terça-feira, 18 de agosto de 2009

SINCERA

Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu chegaria e te daria um longo e apertado abraço, faria uma piada idiota e te encheria de beijinhos. Mas aí você iria achar que sou pegajosa.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu chegaria e te diria que não gosto de você, pois você é um arrogante, presunçoso e metido que, além de tudo, não toma banho. E eu não abraçaria você no seu aniversário por causa do fedor. Mas aí todos me achariam indelicada.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu ficaria tão à vontade que imitaria um louva-deus, mexendo os bracinhos, e logo depois falaria com os meus cães, na sua frente, usando a minha voz de desenho animado. Mas aí você me acharia idiota, infantil e indígna da sua amizade.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu diria que essas filosofias pessimistas são até legais e, um tanto quanto verdadeiras, sim, mas que no final não nos ajudam a viver porra nenhuma. Mas aí você me taxaria de superficial e de ingênua.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu diria que o que realmente importa na vida são as relações que construímos e as pessoas que levamos com a gente. Mas aí você diria que não tenho ambições e nem sonhos.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, confessaria que sexo pra mim é algo totalmente desvinculado do amor, a tal ponto que aceitaria uma terceira pessoa na jogada, porque simplesmente pode ser divertido. Mas aí você diria que eu sou, além de uma sem vergonha, uma cega e corna, que não enxerga o que está na frente do próprio nariz.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu diria que eu gosto de assistir à novela das oito, que sou fã do arroz com feijão e farofa e que meu armário é 70% C&A. Mas aí você me taxaria de populaxa, ou alguém que tenta aparentar a tal.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu confessaria que iria no Fondue da Olaria em plena sexta-feira só pra matar uma vontade, e que, além de pagar o meu rodízio, pagaria o do meu amigo. Confessaria também que não economizo quando o assunto é shampoos, cremes e afins. Mas aí você me diria que sou metida, patricinha e também incoerente, pois no dia anterior eu estava me encolhendo pra gastar em um mísero cheeseburger com refri.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu diria que sim, eu sei mais do que você pensa que eu sei. E que, mesmo assim, não fico jogando isso na sua cara toda hora, pois é chato. Mas aí você diria que eu só busco a auto-afirmação por lhe confessar isso. E talvez seja mesmo verdade.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu dançaria quebrando até o chão, tocaria air guitar enquanto pulo um rock & roll, e cantaria todas as músicas da Madonna e do Michael a plenos pulmões porque isso simplesmente é libertador e me deixa feliz. Mas então todos à nossa volta, e inclusive você, concluiriam que o que eu quero mesmo é aparecer.
Se eu pudesse ser totalmente sincera com você, eu diria que a minha sinceridade é algo que dedico a quem vai compreendê-la e a quem a mereça. Mas aí você diria que isso é ser falsa.

E eu diria: falso é você, seu moralista de meia tigela!

post de ontem do Sonhos de Lulu, escrito pela Paula

Os Sonhos de Lulu
thunder

domingo, 2 de agosto de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

SATURAÇÃO

Não aguento mais esses caras. Todos eles. Precisávamos fazer alguma coisa. Nós precisávamos. Nós, que digo, somos nós contribuintes, eleitores, trabalhadores. Nós “povo”. Para começar, vamos extinguir o Senado. Podemos fazer isso.

Direi como.

Antes, faz-se necessário sublinhar que o Senado não é o único culpado pela minha saturação, que, suponho, seja a nossa saturação. A culpa cai sobre o Legislativo inteiro, do vereador verdureiro de um povoado do Tocantins ao nababo que se elegeu deputado federal por São Paulo a golpes de euros. Os parlamentares, enfim, eles com suas barganhas espúrias, com suas viagens de turismo patrocinadas pelas burras do Estado. Com sua demagogia.

Mas não só os parlamentares. O Executivo também. Sobretudo o governo federal, que intumesce os quadros do funcionalismo para se eternizar no poder, que tolera e acalenta corruptos, que faz caridade com o dinheiro dos impostos. E também o governo estadual, com suas escolas de lata. E o municipal, com sua letargia crônica.

O Judiciário, ainda que seja menos devassável, não é menos reprovável, com seus palácios de mármore e seu nepotismo figadal.

Executivo, Legislativo, Judiciário. Se nenhuma peça funciona como devia, o defeito está no sistema. Nosso estilo de democracia não funcionou, temos que admitir. Esse modelo, baseado no norte-americano, teria de ser trocado. Mantendo-se a democracia, claro, mas de outro tipo. Um rodízio de governantes, como na Suíça. Parlamentares não remunerados talvez não fosse boa ideia... Sei lá. Sei que é preciso mudar.

Mas não vai mudar, se não fizermos nada. Por isso, a extinção do Senado. Vamos tomá-lo como um símbolo. Vamos fechá-lo para sempre e adotar o unicameralismo, que existe em tantas nações.

Como fazer? Assim: não vote para senador nas próximas eleições. Peça a seus familiares, a seus amigos, a seus colegas, peça a quem você encontrar na rua que não vote para senador. Espalhe essa mensagem pela internet, cole adesivos nos vidros do seu carro, grite que você se recusa a votar para senador. Em qualquer senador.

Os senadores dignos, que há senadores dignos, como há homens dignos em todos os três poderes putrefatos, pois esses senadores dignos deveriam tomar a peito a campanha. Deveriam renunciar. Um Cristovam Buarque, um Eduardo Suplicy, eles deveriam subir à tribuna e, num gesto grandioso, desistir do mandato em nome do povo brasileiro. Os nossos senadores, Simon, Paim e Zambiasi, homens sérios, tinham de fazer o mesmo. Que as cadeiras do Rio Grande do Sul fiquem vazias no Senado. Que nenhum gaúcho, nenhum brasileiro vote para senador nas próximas eleições. Para gritar a nossa indignação, vamos fechar aquele lugar. Vamos acabar com os senadores. Ou, pelo menos, cobri-los de vergonha.

David Coimbra, na Zero Hora de 31 de julho.

Rafa

sábado, 1 de agosto de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O injuriado

Estamos novamente em agosto, que rima com... Por favor, não completem. Venho ouvindo isto desde que me conheço por gente e sempre fico indignado. Tá bem, nasci em agosto, é uma indignação em causa própria. Sei que a história registra algumas desgraças neste mês que os romanos dedicaram ao imperador Augusto, incluindo-se aí as duas bombas atômicas, mas todos os meses do ano têm as suas tragédias. É frio por aqui nesta época, isso também é verdade. E julho? Quem não congelou nesta semana que está terminando? Nem por isso ouvi algum detrator dizendo que julho rima com, digamos, entulho, barulho, engulho, embrulho ou qualquer outra palavra depreciativa.

Mas agosto não escapa. Começou com os descobridores desta pátria amada. As mulheres portuguesas não se casavam em agosto, porque era o mês escolhido pelos marinheiros para zarpar à procura de novas terras. Aquelas que se arriscavam a subir ao altar neste oitavo mês do ano arriscavam-se também a ficar sozinhas, sem lua-de-mel e até mesmo sem o maridão, caso a caravela naufragasse. A superstição de não se casar em agosto estendeu-se aos negócios, à mudança de casa e a qualquer coisa muito significativa. Ou se antecipava, ou se adiava. Para completar, um engraçadinho fez a rima e nós, os agostinos, nos danamos.

Já tentei reabilitar agosto algumas vezes, lembrando que neste mês também ocorrem coisas boas, as pessoas se aconchegam, nasce gente charmosa, temos um dia todinho para os pais, há flores que podem ser plantadas nestes dias em que o inverno começa a preparar sua bagagem para sair de cena. Em agosto, por exemplo, planta-se a açucena, que inspirou Thiago de Mello a escrever estes versos lindos: “Quando acariciei o teu dorso,/ campo de trigo dourado,/ minha mão ficou pequena/ como uma flor de açucena/ que delicada desmaia/ sob o peso do orvalho./ Mas meu coração cresceu/ e cantou como um menino/ deslumbrado pelo brilho/ estrelado dos teus olhos”. Os poetas, felizmente, não silenciam em agosto.

O injuriado agosto é, na verdade, um mês de dias luminosos, de azul profundo no céu, de transição serena para a primavera em nosso hemisfério. Este mês que começa hoje pode ser bom ou mau, dependerá do que faremos para preencher os seus 31 dias. Como advogado de defesa, abro com este habeas corpus preventivo na esperança de que os difamadores se contenham, esqueçam as rimas e as superstições. E façam como os navegadores portugueses: procurem descobrir novos mundos em agosto.

Nilson Souza, na página 3 do Zero Hora de hoje

thunder

quarta-feira, 4 de março de 2009

AS DUAS PULGAS

Duas pulgas estavam conversando e então uma comentou com a outra:

- Sabe qual é o nosso problema? Nós não voamos, só sabemos saltar. Daí nossa chance de sobrevivência quando somos percebidas pelo cachorro é zero.… por isso que existem muito mais moscas do que pulgas.

Elas então contrataram uma mosca como consultora, entraram num programa de reengenharia de voo e sairam voando. Passado algum tempo, a primeira pulga falou para a outra:

- Quer saber? Voar não é o suficiente, porque ficamos grudadas ao corpo do cachorro e nosso tempo de reação é bem menor do que a velocidade da coçada dele.
Temos de aprender a fazer como as abelhas, que sugam o néctar e levantam voo rapidamente.

Elas então contrataram o serviço de consultoria de uma abelha, que lhes ensinou a técnica do chega-suga-voa. Funcionou, mas não resolveu... A primeira pulga explicou por quê:

- Nossa bolsa para armazenar sangue é pequena, por isso temos de ficar muito
tempo sugando. Escapar, a gente até escapa, mas não estamos nos alimentando direito.
Temos de aprender como os pernilongos fazem para se alimentar com aquela rapidez.

E então um pernilongo lhes prestou uma consultoria para incrementar o tamanho do abdômen. Resolvido, mas por poucos minutos.... Como tinham ficado maiores, a aproximação delas era facilmente percebida pelo cachorro, e elas eram espantadas antes mesmo de pousar. Foi aí que encontraram uma saltitante pulguinha, que lhes perguntou:

- Ué, vocês estão enormes! Fizeram plástica?

- Não, reengenharia. Agora somos pulgas adaptadas aos desafios do século XXI. Voamos, picamos e podemos armazenar mais alimento.

- E por que é que estão com cara de famintas?

- Isso é temporário. Já estamos fazendo consultoria com um morcego, que vai nos ensinar a técnica do radar. E você?

- Ah, eu vou bem, obrigada. Forte e sadia.

Mas as pulgonas não quiseram dar a pata a torcer, e perguntaram para a pulguinha:

- Mas você não está preocupada com o futuro? Não pensou em uma reengenharia?

- Quem disse que não? Contratei uma lesma como consultora.

- Mas o que as lesmas têm a ver com pulgas? quiseram saber as pulgonas...

- Tudo. Eu tinha o mesmo problema que vocês duas. Mas, em vez de dizer para a lesma o que eu queria, deixei que ela avaliasse a situação e me sugerisse a melhor solução. E ela passou três dias ali, quietinha, só observando o cachorro e então ela me disse:
"Não mude nada. Apenas sente na nuca do cachorro… o único lugar que a pata dele não alcança".

MORAL DA HISTÓRIA:
Você não precisa de uma reengenharia radical para ser mais eficiente. Muitas vezes, a GRANDE MUDANÇA é uma simples questão de reposicionamento.

autor desconhecido

thunder