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domingo, 28 de novembro de 2010

COMO ACABAR COM O TRÁFICO

Traficantes esgueirando-se às centenas, quiçá milhares, feito baratas pelos matos dos morros cariocas. Homens de bermudas, sem camisa, mas com fuzil AK nos ombros. Bandidos com capacidade de fogo suficiente para arremessar granadas em blindados.

Como é possível que sejam tantos e reúnam tamanho poder?

Simples: o poder vem da maior fonte de poder do mundo: do dinheiro.

E de onde vem esse dinheiro?

Óbvio: do comércio de drogas.

E uma última pergunta: por que o comércio de drogas é tão frutuoso?

Essa pergunta é decisiva. Afinal, não existem tantas pessoas que consomem drogas. A maioria, a IMENSA maioria, não consome drogas. No entanto, existem consumidores de drogas, é claro que existem, e eles são, quase todos, jovens que passam pela droga algumas vezes e a abandonam logo ali.

O que torna o tráfico lucrativo, portanto, não é o consumo massivo da droga: é a proibição da droga. A droga, tornada clandestina, não paga imposto, não assina carteira, nem tem controle de qualidade.

Se, de um dia para outro, o Estado proibir a venda de sabão, as pessoas ainda assim continuarão usando sabão, levando alguns a produzir sabão e outros tantos a vender sabão. O comércio do sabão continuará farto, embora proibido. Mas, proibido, não pagará nenhuma taxa, nenhum imposto, nada. Não terá nenhuma obrigação social. Os trabalhadores envolvidos na produção e na venda do sabão não terão direito a férias, décimo-terceiro, horas extras etc. E o dono da fábrica clandestina de sabão ficará rico, poderá comprar armas para enfrentar a polícia que tenta reprimir o tráfico de sabão. Terá tantos recursos que corromperá a própria polícia e a justiça para continuar vendendo o seu sabão.

Aí chega um legislador convincente e demove o Estado da proibição do sabão. A venda do sabão foi liberada! Agora, os produtores de sabão terão de montar uma sede legalizada, com recepcionista e pagamento de IPTU; terão de registrar seus trabalhadores e pagar-lhes os direitos exigidos pela lei; terão de pagar os impostos sobre a produção e a venda do sabão, o imposto de renda, os impostos sobre propriedade. Agora, os produtores de sabão não usam mais bermudas e nem ficam sem camisa: eles usam terno e gravata. Eles ganham muito menos. E pagam muito mais.

Pegue aquele traficante que se rasteja pelo morro de bermuda, sem camisa, mas com um AK nos ombros, troque seu fuzil por uma pasta de executivo, meta-lhe dentro de uma gravata, legalize-o e faça com que o sistema o absorva.

Pronto. Acabou a criminalidade.

Transformar a droga de um problema de segurança em um problema de saúde, esse é o caminho para acabar com a guerra urbana do tráfico.

Texto de David Coimbra, em seu blog!

Rafa

sábado, 28 de agosto de 2010

MUITO ANTES DOS DINOSSAUROS

Há pouco menos de 14 bilhões de anos tudo no universo era praticamente nada. Um pontinho, só, e muito, muito menor do que este que ora pingarei: . Então, toda aquela energia concentrada, por algum motivo, CATABLOM!, explodiu. Era o Big Bang. As coisas estavam começando.

Passaram-se 9 bilhões de anos, um pouco mais. Aí foi a vez de uma supernova explodir na Via Láctea. Uma das lascas dessa supernova transformou-se em uma estrela de estatura mediana, o Sol. Isso aconteceu há quatro bilhões e 600 milhões de anos. Pelas estimativas dos cientistas, o Sol continuará ardendo por mais cinco bilhões e 400 milhões de anos. Depois, como todo o resto do Universo, esfriará. Quando o Sol se apagar, a vida por aqui ficará meio difícil, prepare-se, compre velas.

Após a criação do Sol, transcorreram alguns milhões de anos. Côsa pôca, como se diz no Alegrete. E a Terra surgiu de um daqueles pedaços de estrela que andavam pelo espaço. No princípio, não era um bom lugar para se morar. Não havia chão, nem água. O planeta todo era uma bola de fogo e lava borbulhante. Com todo aquele calor, a água não se condensava. Permanecia na atmosfera, em forma de nuvens de vapor. O tempo prosseguiu assim, horrível, por uns 500 milhões de anos. Aí piorou. Como a Terra esfriou um pouquinho, começou a chover. Quando chove um fim de semana, a gente se irrita, não é? Imagine que naquela época choveu durante MILHÕES de anos. Tempestades violentas, elétricas, paredes d’água desabando e formando, enfim, os oceanos. Ao mesmo tempo, as placas de terra recém-constituídas se moviam, liberando gases das entranhas do planeta de forma extremamente ruidosa, fenômeno que os cientistas, demonstrando todo o seu bom gosto, chamam de “O Grande Arroto”.

Enquanto isso tudo acontecia, a Terra foi esfriando e assim a crosta da superfície aos poucos se solidificou. As rochas mais antigas foram descobertas na Groenlândia. Elas têm 3,8 bilhões de anos de idade. Por essa época, raios duplos, raios triplos, mil vezes raios desabavam nos jovens oceanos. As descargas elétricas causaram uma reação inesperada naquela sopa química primeva: deram origem às primeiras formas de vida. Não faz muito, os cientistas identificaram um fóssil de bactéria com 3,5 bilhões de anos.

A partir desse ponto, as bactérias tomaram conta da Terra. Não havia um milímetro quadrado que não estivesse completamente coberto de bactérias pegajosas, um nojo. Mas foram essas bactérias que fixaram no ar elementos indispensáveis a outras formas de vida. Por outros bilhões de anos elas fermentaram e se reproduziram, até que, deste processo, surgiram as plantas pioneiras. O mundo vegetal é jovem: tem 460 milhões de anos.

Agora, tudo foi mais rápido. Há 250 milhões de anos, o mundo inteiro estava coberto de samambaias gigantes, maiores do que árvores, impossíveis de se acomodar em um vaso na sala. Mais ou menos por esse tempo, os animais marinhos deram um jeito de subir à terra firme. O primeiro deles, o número 1, foi o querido… tatuzinho! Olhe para um deles na areia na próxima vez que você for a Pinhal. Era assim o seu tataratataratataratataratataratataratataratataravô.

Os peixes eram os donos da Terra, portanto. Você já viu um peixe transando? É assim: a peixa nada para algum lugar e deposita ali os seus óvulos, um monte deles. Aí o peixo nada até lá, deita o esperma em cima dos óvulos e vai embora. Pronto. Fim. Consummatum est. É por isso que não existe nenhum canal de sacanagem de peixe na TV a cabo.

Quando os anfíbios evoluíram e se tornaram répteis é que os machos resolveram depositar o esperma dentro da fêmea, e não fora. Graças aos répteis, pois, a Humanidade criou calcinhas de rendinha, o conjunto minissaias & botas, toda a teoria psicanalítica de Freud e as tatuagens da Megan Fox.

Os répteis evoluíram tanto, aqueles serelepes, que se transformaram nos dinossauros e tomaram conta do mundo. Mas há 65 milhões de anos um meteoro de 200 quilômetros de largura caiu no México, tirou a Terra do eixo e os dinos se extinguiram. A essa altura, Pangeia, que era o único bloco de terra do planeta, já havia se rompido. Os continentes estavam separados irremediavelmente e nós fomos condenados a ir para a Europa de avião.

O primeiro hominídeo foi dar as caras no planeta há 4,5 milhões de anos. O homo erectus há 1,8 milhões de anos. E a nossa atual forma humana, o homo sapiens, há 150 mil anos. Destes, 140 mil anos foram de caça, coleta e nomadismo. A Civilização existe há 10 mil anos, nada mais. O Brasil há 510. Porto Alegre há menos de 300. O Campeonato Brasileiro começou em 1971. O sistema de pontos corridos desde 2003.

Pense nisso tudo. Pense nessa grande história. Pense em perspectiva. Que importância tem se um time for rebaixado em 2010?

Texto do excelente David Coimbra, direto de seu blog!

Rafa

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O que as mulheres realmente querem

Disse, certa vez, o que uma mulher realmente quer. Agora direi de novo. Falo, atenção!, do que uma mulher re-al-men-te quer. É o seguinte:

Autoridade.

Ela quer que você, homem, tenha autoridade.

Isso demanda alguma sutileza da sua parte – mulheres são seres sutis. Prova? As calças sem fundilhos. Existe alguma razão para que elas usem aquelas calças sem fundilhos, uma razão oculta, muito bem dissimulada, que nós, na nossa bruta avaliação estética, não alcançamos. Por que uma mulher quereria ficar horrenda, como elas ficam dentro daquelas calças? Deve ter um motivo. Suspeito que jamais descobriremos.

De qualquer forma, a sutileza da qual você necessita é menos complexa. Basta entender que ela espera que você tenha autoridade, mas não seja autoritário. Assim como quer que você seja divertido, não palhaço; gentil, não subserviente; generoso, não perdulário; bondoso, não otário; atencioso, não obcecado; interessado, não inconveniente; elegante, não vaidoso; prudente, não covarde.

É simples.

Se você atender a esses requisitos, as mulheres agradar-se-ão de você. Mas você não poderá dispensar a autoridade. Porque a mulher é assim: pense agora na mulher mais afetada, pedante e posuda que você conhece. Provavelmente ela é também uma mulher bonita. Talvez tenha algum poder. Talvez seja até a sua chefe. Ela manda, ela com seus tailleurs, ela se diz feminista, ela exige seus direitos, ela é cheia de argumentos, certo?

Certo.

Só que, na última esquina da alma, no escaninho mais escuro e bem guarnecido de seu ser, homizia-se o seu verdadeiro desejo: o de encontrar um homem que a chame de sua cachorrinha, ou, vá lá, gatinha. Porque ela quer ronronar no calor do colo deste homem, quer se aconchegar em seu braço forte, quer que ele a proteja como se fosse seu pai, que a faça se sentir uma menina, uma princesa delicada e quebradiça, uma boneca de louça valiosa e frágil, ela quer que ele puxe os cobertores até seu queixo no inverno e a surpreenda com uma casquinha de morango no verão, ela quer que ele lhe mande flores para todo o escritório ver, ela quer ser propriedade deste homem, quer ser sua nenezinha, sua tchutchuquinha, sua biliglubuquinhazinha, é isso que ela quer!

Mas ela encontra isso? Ela encontra um homem que a possa acalentar? Ela encontra um homem que re-al-men-te tenha autoridade?

Não.

Melancolicamente, a resposta é não.

Não é fácil, para uma mulher, encontrar um homem que tenha os predicados que um homem deve ter. Isso é tão difícil como, por exemplo, um time encontrar um zagueiro que tenha essa mesmíssima qualidade:

Autoridade.

Além de ser um zagueiro que tenha técnica, mas não enfeite; que tenha estatura, mas não seja um estafermo; que fale em campo sem perturbar os colegas de defesa; que represente o time sem chamar demais a atenção sobre si mesmo; que se imponha aos adversários sem ser violento; que seja discreto sem perder a eficiência; que saiba que seu objetivo pessoal passa pelo atingimento do objetivo do grupo.

Um zagueiro assim é raro. É ouro em pó.

David Coimbra, na página 50 do Zero Hora de hoje

thunder

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Sem retoque algum, do texto e da minha concordância com David.

Ricardo Amorim e os metrôs da China

Sabe quantos metrôs estão sendo construídos na China neste momento? Não estações de metrô, não linhas de metrô, mas sistemas inteiros, labirintos subterrâneos cavados sob cidades com mais de 5 milhões de habitantes, sabe quantos?

Oitenta.

Munido dessa informação, tente calcular quanto ferro os chineses terão de empregar em seus 80 novos sistemas de metrô. Toda uma Grande Muralha talvez pudesse ser erguida com esse ferro, não é mesmo?

Bem. Agora pense em quem vai fornecer o ferro para os chineses. Quem é o segundo maior produtor de ferro do mundo, abaixo, exatamente, da própria China?

É. O Brasil.

Tais informações, as colhi na palestra do Ricardo Amorim, proferida durante o feriado, no Plaza. Ricardo Amorim, você sabe, além de percuciente integrante da bancada do Manhattan Connection, foi um dos raros economistas a prever o estouro da crise mundial do ano passado.

Foi o que me levou ao Plaza. E não me decepcionei. A palestra foi recheada de conteúdo, valeu cada real da inscrição.

Ao apresentar dados como o número de metrôs em construção na China, Ricardo Amorim mostrou que, a partir da entrada dos chineses no comércio mundial, no ano 2000, o Brasil passou a crescer e não parou mais. Porque o Brasil tem o que os chineses querem: comida e matéria-prima, como o ferro das estruturas dos metrôs. Continuará crescendo enquanto os chineses estiverem consumindo, e isso vai durar largo tempo. Os índices do país também continuarão melhorando: mais emprego e, consequentemente, menos criminalidade; mais recursos para investir em infraestrutura; mais gente vivendo melhor; mais popularidade para o presidente. Tudo muito alvissareiro.

Houve apenas um setor que permaneceu intocado, na ampla análise do Ricardo Amorim: a educação básica. Ricardo Amorim não tocou no tema da educação básica porque neste tema ninguém toca por aqui. Há investimento em universidades e escolas técnicas, há investimento em usinas de energia, há investimento em pesquisa, tecnologia e transporte. Para as crianças, não há nada.

Lembro do velho Leonel Brizola na eleição de 1989. Repetia Brizola, com aquela sua fala cantada:

– As crianças... temos que salvar as crianças...

Vinte anos se passaram e, desde então, só ouvi um político falar nas crianças. Justamente um discípulo de Brizola, Cristovam Buarque. Quando ministro da Educação, Cristovam Buarque queria tratar do assunto com Lula. Não conseguia audiência. Reclamou:

– Presidente, só consigo falar com o senhor se calçar tênis e for jogar bola.

Lula rebateu:

– Se você não gosta de usar tênis, jogue descalço.

Buarque pediu demissão, candidatou-se a presidente e angariou fama de sujeito exótico, que só falava em educação. E assim tem sido. Você não ouve ninguém falar em educação básica, mas ouve o Ricardo Amorim e fica entusiasmado. O Brasil vai ganhar dinheiro com o pré-sal, o Brasil vai ganhar dinheiro vendendo a indianos e chineses, muita gente vai ganhar dinheiro no Brasil. Que bom. Haverá mais gente para dar esmola às crianças sujas debaixo dos semáforos do Brasil.

Coluna do estimadíssimo David Coimbra de hoje, na Zero Hora.

Rafa

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

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Dramas da evolução

A sua vida podia ser diferente. Olhe bem para a sua mulher. Observe a carne pendente sob os braços dela. Veja com que sofreguidão ela come aquele quindim. Ela está engordando a cada dia.

Pense nas manhãs em que ela está inspirada para falar. Ela fala. Falafalafalafala. E mais: fala.

Lembre-se das vezes em que ela o obrigou a ir a aniversários de crianças, a jantares na casa da tia-avó dela. Lembre-se dos Natais! Como você sofre a cada Natal, tendo que contentar a sua família e a família dela.

Não precisava ser assim. Tornou-se assim por uma opção evolutiva. Quer prova? Recuemos um tantinho no tempo. Dois milhões de anos. Naquela época, um hominídeo de um metro e trinta de altura zanzava serelepe pelas savanas da África. Era o homo habilis, seu antepassado. O homo habilis andava sobre duas pernas, como você, e tinha um cérebro bem maior do que os cérebros de todos os outros animais, mas não tão grande quanto o seu. Para falar, como você fala, para ler a coluna do Wianey Carlet, como você lê, e para inventar instrumentos úteis, como o google, o controle remoto e o biquíni com lacinho, o homem precisava de um cérebro maior.

Foi neste ponto que a evolução chegou a um impasse.

Aconteceu o seguinte:

A abertura pela qual os nenês passam ao nascer, situada, como sabemos, no entrepernas das fêmeas da espécie, essa abertura tem de ser maior do que a cabeça do recém-nascido, senão o recém-nascido entala, o que é chato. Com o passar dos milhões de anos sobre a Terra, o cérebro do ser humano foi aumentando e, para acomodá-lo, a cabeça também foi aumentando. Logo, a abertura por onde passam os nenês também deveria aumentar. Só que, se aumentasse até ficar do tamanho de um cérebro adulto moderno, como, por exemplo, o cérebro da Carla Perez, a abertura por onde passam os nenês teria que se alargar muito. O afastamento da pélvis prejudicaria a nossa elegante postura ereta, teríamos de nos curvar. Em resumo, cair de quatro.

Eis o drama: para dispor um cérebro grande, capaz de bolar o piercing no umbigo, o homem teria de deixar de ser bípede. Mas, se deixasse de ser bípede, não poderia manusear instrumentos ou digitar o nome da Megan Fox no youtube.

E agora?

A Natureza resolveu o problema de uma forma muito engenhosa. Assim: ao nascer, o cérebro dos humanos ainda não tem o tamanho padrão. Logo, a cabeça do nenê é pequena, e passa por onde há de passar. Mas, nos anos seguintes, o cérebro cresce como o de nenhum outro animal, torna-se quatro vezes maior do que o volume que tinha no dia do nascimento. A desvantagem deste sistema é que um nenê bípede, que gasta a maior parcela da sua energia no crescimento do cérebro, não nasce com a desenvoltura de um quadrúpede. Um cavalo, tipo o Tragueado ou o Camelo Voador, que correram no Cristal esta semana, um cavalo como eles nasce, equilibra-se e sai trotando com a energia de um... bem, de um cavalo. Já um nenê humano, como o meu Pocolino, necessita de pelo menos seis ou sete anos de cuidados, atenções e mamadeira quentinha.

Foi uma troca, portanto. Uma escolha da Evolução. Que acarretou outra questão: como ficou tão complicado criar seus filhotes, a fêmea humana teve de requisitar a ajuda do macho. Para convencer o macho a auxiliá-la, ela lhe ofereceu o que ele queria: sexo. A fêmea humana, desta maneira, é a única que tem orgasmos o mês inteiro, desde que competentemente estimulada, é claro; é também a única que pode copular todos os dias, sem a necessidade de entrar no cio; e ainda é a única que usa minissaia e botas. Tudo isso para que o macho não se aventure por aí com outras fêmeas, mantenha-se com ela e ajude a cuidar dos pocolinos.

Logo, sua mulher aí ao lado, falando sem parar e engordando inexoravelmente, ela não tinha de estar aí. Você poderia ter um cérebro menor e viver caçando, pescando e coletando alegremente com seus amigos, trocando de fêmeas como quem troca de caverna, divertindo-se pela velha e aprazível savana africana. Mas, não. Você quis evoluir. Agora está em casa, tendo que aguentar o matrimônio e o campeonato de pontos corridos. Bem feito pra você.

David Coimbra, impagável, na página 39 do Zero Hora de hoje

thunder

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Quero ser influenciado

Thomas Jefferson passou boa parte da vida tentando pagar dívidas. Vendia terras, vendia escravos, vendia quase tudo que tinha, em vão. Não conseguia saciar os credores. Um dia, decidiu vender o que lhe era mais caro: seus livros. Jefferson havia acumulado a maior biblioteca dos Estados Unidos na época, os albores do século 19. Não pareceria muito grande hoje, com seus cerca de 7 mil volumes. Naquele tempo de tipografias, porém, imprimia-se menos. Além disso, a biblioteca de Jefferson realçava-se pela qualidade das obras. Era organizada segundo os preceitos de Francis Bacon, que dividiu o pensamento em três áreas: a memória, a sabedoria e a imaginação. Ou História, Filosofia e Literatura.

Jefferson ofereceu seus livros ao Congresso Americano, que os comprou e o salvou da falência. Foi esta a base da Biblioteca do Congresso, hoje a maior do mundo, com 120 milhões de obras. Se as estantes da Biblioteca do Congresso fossem colocadas lado a lado, se estenderiam por 850 quilômetros. Você poderia ir de Porto Alegre a Punta del Este caminhando sobre as estantes da Biblioteca do Congresso. E ela não para de crescer – a cada dia, o Congresso adquire cerca de 7 mil exemplares. Uma biblioteca de Jefferson por dia. Até alguns da autoria do degas aqui podem ser encontrados lá.

Não há como não sentir vertigem em um lugar desses. Aqueles livros, milhões deles, e a certeza de que nem se vivendo 10 vidas seria possível lê-los todos. Em um livro que conta A Conturbada História das Bibliotecas, o autor, Matthew Battles, ele próprio bibliotecário, reproduz um texto em que o personagem experimenta tal sensação. Ele percorre as estantes da Biblioteca de Harvard, a quarta maior do mundo. E o que lhe sucede é o seguinte:

“À noite, ele saía vasculhando as estantes da biblioteca, puxando livros a esmo daquelas milhares de estantes e lendo-os feito um doido. Pensar naquelas estantes intermináveis repletas de livros deixava-o ensandecido – quanto mais lia, mais inumeráveis pareciam ser aqueles que jamais conseguiria ler. Lia insanamente, às centenas, aos milhares, às dezenas de milhares. A ideia de que outros livros estavam aguardando por ele atormentava-lhe o coração. Imaginava-se rasgando as entranhas de um livro como se estripa um frango”.

Foi como me senti quando pisei na Feira do Livro pela primeira vez. Já tinha estado na Biblioteca Pública, já tinha frequentado grandes livrarias, mas aquilo era diferente. O livro ali, no chão da Praça, sob as copas das árvores, em barracas de quermesse, não era sisudo como o livro das bibliotecas, que é manuseado em silêncio de hospital. Não. Na Feira, o livro é como pipoca e picolé. É uma festa. Mas havia tantos... Impossível ler todos. Em quais, então, deveria concentrar meu limitado poder econômico e meu tempo de leitura? Procurei indicações. Uma das mais valiosas foi a lista dos mais comprados. Ler o que os outros estavam lendo podia, no mínimo, render uma crítica ácida ao gosto dos outros. Agora a Feira não faz mais a lista dos mais comprados. E por quê? Para não influenciar o público, alegam os organizadores. Mas não era essa a ideia? Não é para servir de parâmetro? História? Filosofia? Ou literatura? Autores nacionais ou estrangeiros? O que é que o povo está lendo? Quero saber. Influenciem-me. Quero ser influenciado.

David Coimbra, na página 2 do ZeroHora de hoje

thunder

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

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Uma linda mulher

Com o olhar atarraxado no colo dourado de certa mulher, em certo bar da cidade, meu amigo Vitorinho Gheno proferiu, dias atrás, uma frase que define à perfeição o que há de melhor neste primeiro naco do século 21. Disse-o sussurrado, que o Vitorinho não é homem de arroubos. Ao contrário: fala pouco, quase não se manifesta numa mesa de bar, nem rir ele ri. Mas está lá, observando, os olhos míopes registrando tudo por detrás dos óculos, a mente de arquiteto pondo ordem no mundo, tirando conclusões. Uma delas a que resultou na frase sobre a qual escrevo agora.

É que essa mulher a quem Vitorinho examinava, pulsante de admiração, é uma mulher que já venceu a curva dos 30 e tantos anos de idade, uma mulher que, em outros tempos, seria designada pejorativamente como balzaquiana. Hoje, não. Hoje é uma mulher em pleno exercício da beleza, pronta para haurir do mundo todas as aventuras que o mundo pode propiciar. Foi por isso que Vitorinho falou o que falou. O seguinte:

– A mulher feia está em extinção.

Olhei para o Vitorinho e disse:

– É isso mesmo, Vitorinho! É isso mesmo!

E é. Hoje as mulheres dispõem de todos os artifícios cosméticos, de adereços sutis, de roupas provocantes, e hoje elas comem melhor, dormem melhor, fazem exercícios, besuntam-se de cremes. Há cremes para cada polegada do corpo sinuoso de uma mulher. Para o cotovelo. Uma mulher que amacia o cotovelo a creme é de uma sensualidade perturbadora. Sinal de que ela está atenta a cada minúcia do próprio corpo. Um homem jamais se preocupa com o seu cotovelo. O cotovelo é insensível. Você pode levantar uma pessoa pelas pelancas dos cotovelos e ela não sentirá nada, sabia? Mas ninguém fará isso. Ninguém liga para o cotovelo. A não ser uma bela mulher.

Uma bela mulher dá importância a tudo em si mesma. Quantas horas por dia ela consome na construção da própria beleza? Quanto sacrifício ela faz? Dietas à base de vegetais insossos, levantamento de peso, depilação com cera quente – sim, as mulheres são capazes de deixar imberbes, lisas e tenras as partes mais recônditas e sensíveis de seus corpos.

Isso tudo, essa disposição, essa abnegação, esse denodo, isso tem de ser valorizado. Quando as pessoas elogiam aquela modelo que se deixou ser fotografada com o ventre flácido exposto ou quando a Playboy anuncia que fará um ensaio com uma mais ou menos, como parece que fará nos próximos dias, quando tal acontece, o esforço diário, secular e universal das belas mulheres é vilmente desprezado.

Trata-se de um desvario. E de uma desinteligência. Já me embeveci diante do Duomo de Milão, do Moisés de Michelangelo e das Cataratas do Iguaçu. Por que não me emocionaria ao olhar para um linda mulher e deparar com seus olhos d’água, suas pernas de louça, seus cabelos reluzentes? Sobretudo se houver ali, além da dádiva da Natureza, como são as Cataratas do Iguaçu, a obra da Civilização, como são o Moisés e o Duomo.

Nada contra a modelo de barriga mole ou a média sem roupa da Playboy. Só que elas também não precisam ser festejadas. Nenhum preconceito contra as feias assumidas. Mas prefiro as bonitas convictas.

David Coimbra, na página 2 do Zero Hora de hoje

thunder

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

Adúlteros e sonegadores

Conheço um cara que trai a mulher. Sério. Um adúltero! Anda por aí, entre nós.

Conheço outro que freqüenta lupanares. Sabe lupanar? Casa de tolerância, conventilho, randevu, alcouce. Prostíbulo, enfim. Ele vai a esses lugares. Quem olha para o gaiato, não diz. Homem sério, conversa com toda a gente, usa gravata.

Tem mais um que sei que ele sonega imposto de renda. Apresenta notas falsas para o fisco, inventa dependentes e, que coisa, não declara seus verdadeiros rendimentos.

Não cessa aí a lista de quase meliantes das minhas relações. Tenho dois conhecidos que se embriagam em festas. E um deles... já fumou maconha.

Você não vai acreditar, mas esses homens não se movimentam pela cidade atrás de máscaras pretas, nem dentro de macacões listrados. São iguais a você, que não é quase meliante. Você, é claro, nunca traiu uma mulher, nunca foi a um bordel, nunca enganou o imposto de renda e nunca bebeu uma dose que fizesse tremer o ponteiro do bafômetro. Você, não.

Como se explica, então, o comportamento desses meus lastimáveis conhecidos? Por que a carne deles é fraca e eles não conseguem ser como você?

Alegam que a sociedade, volta e meia, é exigente demais. Talvez tenham razão. Pois o que trai a mulher, não é que ele cultive teúdas e manteúdas, não é que despreze a mulher dele, não é que seja inimigo do matrimônio; ele apenas não é monógamo. Considera monogamia um quase celibato, o que faz dele um quase meliante.

Já o que é adepto de sexo a soldo, não se pode dizer que seja um maníaco sexual. Mas, para ele, às vezes o sexo é tão-somente divertimento. Só às vezes, lógico.

O sonegador, esse garante que, mesmo com as omissões, são os impostos que lhe arrancam a maior parte do salário.

E, finalmente, os bebedores: gostam de beber, mas não dirigem embriagados, nem batem na mulher. No máximo, repetem para os amigos que os consideram pra caramba.

Será que o problema não é certa hipocrisia da sociedade? Quando, por exemplo, Silvio Berlusconi é vilipendiado em todo o planeta por ter se relacionado com prostitutas, não seria o caso de se perguntar o que é que tem? Afinal, nem mulher ele tem mais. O que ele faz de errado? A Itália será prejudicada? Ele está pagando as mulheres com o dinheiro do Estado?

Não que o Berlusconi seja uma bandeirante de inocência, mas, neste caso, será que não há hipocrisia?

Essa gana moralista a assaltar a Itália, justamente a Itália, um tanto dessa gana já assola o Brasil. Natural: alguns abusam tanto da tolerância que o país se torna intolerante. Seria a mais nefasta consequência das ações inconsequentes dos brasileiros: o Brasil perder o seu traço mais humano, perder a qualidade que o distingue dos demais povos. Perder seu caráter tolerante. O brasileiro, de um povo leve, se tornaria um povo duro. E, o pior de tudo, triste.

***

Não vamos mais tolerar aqueles que estão nos tornando intolerantes. Vamos começar por atingi-los. Não vote para senador!

David Coimbra, edição de hoje da Zero Hora.

Rafa

domingo, 2 de agosto de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

SATURAÇÃO

Não aguento mais esses caras. Todos eles. Precisávamos fazer alguma coisa. Nós precisávamos. Nós, que digo, somos nós contribuintes, eleitores, trabalhadores. Nós “povo”. Para começar, vamos extinguir o Senado. Podemos fazer isso.

Direi como.

Antes, faz-se necessário sublinhar que o Senado não é o único culpado pela minha saturação, que, suponho, seja a nossa saturação. A culpa cai sobre o Legislativo inteiro, do vereador verdureiro de um povoado do Tocantins ao nababo que se elegeu deputado federal por São Paulo a golpes de euros. Os parlamentares, enfim, eles com suas barganhas espúrias, com suas viagens de turismo patrocinadas pelas burras do Estado. Com sua demagogia.

Mas não só os parlamentares. O Executivo também. Sobretudo o governo federal, que intumesce os quadros do funcionalismo para se eternizar no poder, que tolera e acalenta corruptos, que faz caridade com o dinheiro dos impostos. E também o governo estadual, com suas escolas de lata. E o municipal, com sua letargia crônica.

O Judiciário, ainda que seja menos devassável, não é menos reprovável, com seus palácios de mármore e seu nepotismo figadal.

Executivo, Legislativo, Judiciário. Se nenhuma peça funciona como devia, o defeito está no sistema. Nosso estilo de democracia não funcionou, temos que admitir. Esse modelo, baseado no norte-americano, teria de ser trocado. Mantendo-se a democracia, claro, mas de outro tipo. Um rodízio de governantes, como na Suíça. Parlamentares não remunerados talvez não fosse boa ideia... Sei lá. Sei que é preciso mudar.

Mas não vai mudar, se não fizermos nada. Por isso, a extinção do Senado. Vamos tomá-lo como um símbolo. Vamos fechá-lo para sempre e adotar o unicameralismo, que existe em tantas nações.

Como fazer? Assim: não vote para senador nas próximas eleições. Peça a seus familiares, a seus amigos, a seus colegas, peça a quem você encontrar na rua que não vote para senador. Espalhe essa mensagem pela internet, cole adesivos nos vidros do seu carro, grite que você se recusa a votar para senador. Em qualquer senador.

Os senadores dignos, que há senadores dignos, como há homens dignos em todos os três poderes putrefatos, pois esses senadores dignos deveriam tomar a peito a campanha. Deveriam renunciar. Um Cristovam Buarque, um Eduardo Suplicy, eles deveriam subir à tribuna e, num gesto grandioso, desistir do mandato em nome do povo brasileiro. Os nossos senadores, Simon, Paim e Zambiasi, homens sérios, tinham de fazer o mesmo. Que as cadeiras do Rio Grande do Sul fiquem vazias no Senado. Que nenhum gaúcho, nenhum brasileiro vote para senador nas próximas eleições. Para gritar a nossa indignação, vamos fechar aquele lugar. Vamos acabar com os senadores. Ou, pelo menos, cobri-los de vergonha.

David Coimbra, na Zero Hora de 31 de julho.

Rafa

sexta-feira, 22 de maio de 2009

DAVID COIMBRA

Zero Hora de hoje:

Inveja dos peixes de açude

Uma vez uma carroça me atropelou, já contei. Faz décadas isso. Mas foi a causa de agora, poucos dias atrás, ter ficado chateado com os deputados do Rio Grande. Pelo seguinte:

Justamente no fulgor deste 2009 aconteceu de certo deputado estadual ter sido acometido por uma ideia para um projeto de lei. A partir daquele instante de luz, pôs-se a funcionar a gigantesca, pesada e complexa máquina do Estado. Estivéssemos atentos, nós, vulgares contribuintes, reles eleitores, também denominados genericamente de “povo”, poderíamos ouvir o clangor das engrenagens se movimentando.

Imagine os sons da faina dos funcionários públicos: as sábias frases do deputado e de seus assessores a discutir, no recôndito do gabinete acarpetado, qual seria a melhor forma de apresentar a proposta. Em seguida, nossos ouvidos seriam lambidos pelo tectec produzido por dedos ágeis desses mesmos funcionários a ferir os teclados de plástico dos computadores, redigindo o texto do projeto de lei. Depois, poderíamos ver a azáfama das dezenas de secretários da Assembleia percorrendo os corredores da Casa do Povo com o projeto em mãos, apresentando-o às comissões temáticas. Aí teríamos a satisfação de testemunhar o burburinho que se deu nessas comissões ante o projeto: legisladores sisudos debruçados sobre o texto, debatendo se ele deveria ser enviado ou não para a Comissão de Constituição e Justiça. Enviado, como foi, o zunzum daquela colmeia de trabalho que é a Assembleia partiu dos próceres da CCJ, que, do alto do seu saber jurídico, analisaram a ideia do parlamentar, e a aprovaram com louvor, submetendo-a, enfim, à votação em plenário.

O plenário é importante. É como se fosse o palco do Legislativo. No plenário, a atividade da máquina do Estado explode em ação pública e notória. Houve discursos na tribuna, quiçá apartes acalorados, houve votação, as taquígrafas a tudo anotaram, pressurosas, e o canal de TV da Assembleia transmitiu a função ao vivo para o Estado inteiro.

O projeto foi aprovado!

Mas os motores do Estado ainda não foram desligados. Seguiram a pleno, fazendo o projeto atravessar a Praça da Matriz, decerto levado por algum apressado funcionário em cargo de comissão muito bem ilustrado acerca do assunto, e em seguida o texto coruscante aterrissou na mesa da governadora Yeda.

Não estávamos prestando atenção. Pena. Estivéssemos, perceberíamos a concentração da governadora ao ter o projeto em mãos. Seus olhos castanhos correndo céleres pelas linhas impressas do papel, seu cenho franzido de gravidade e, a seguir, o aceno de aprovação que provavelmente fez com a cabeça, antes de apor sua assinatura sancionando a lei. Terminou? A dispendiosa máquina do Estado parou de funcionar? A resposta é não! O projeto agora foi repassado para os funcionários do Diário Oficial, que o digitaram, diagramaram e mandaram imprimir. As poderosas rotativas da gráfica estatal entraram em ação, a tinta beijou as lâminas de papel, o projeto do deputado passou para a imortalidade: está instituído o Dia dos Gaúchos Vitimados por Acidentes Aéreos!

São incontáveis as datas festivas aprovadas pela Assembleia, como a Semana do Peixe de Açude, e foi exatamente por isso que me aborreci. Assim como, suponho, outros peixes gaúchos, como os de lagos, largos, lagoas e até mesmo os marítimos, assim como todos esses peixes devem ter ficado irritados com a preferência dos deputados pelos peixes de açude, também eu me magoei. Tenho todo o respeito por quem já sofreu um acidente aéreo e, mais ainda, por seus amigos e familiares que têm de enfrentar a eventual perda. Mas a lei criada pela Assembleia me deixou órfão. E o Dia dos Atropelados por Carroças? Ninguém se importa conosco? Francamente! Tenho que achar um deputado simpático à nossa causa, à dos Atropelados por Carroças. Quero ouvir o doce som do dinheiro do contribuinte sendo queimado a nosso favor.

Eu também quero compaixão. Já fui atropelada por uma bicicleta, poxa. Faz tempo, era criança, mas fiquei extremamente magoada à época. Ninguém dá bola pra isso também?

Rafa

quinta-feira, 23 de abril de 2009

COLUNISTAS QUE RECOMENDAMOS

O carrasco, o machado e o condenado

A posteridade pingou um acento macabro no nome do doutor Guillotin. Teria sido ele o inventor da guilhotina, justamente ele, um médico, de quem se espera a preservação incondicional da vida. Mas Guillotin não inventou a guilhotina. Apenas defendeu com ardor sua utilização nas cerca de três mil execuções da Revolução Francesa. E o fez por caridade, como cabe a um médico, jamais por crueldade.
Até então as execuções eram muito dolorosas para os condenados. No enforcamento, a vítima ficava estrebuchando em agonia por, às vezes, 15, 20 minutos. Ontem mesmo o Sant’Ana lembrou que o carrasco de Tiradentes teve de saltar do patíbulo e se dependurar em seus ombros para aumentar-lhe o peso e assim lhe quebrar o pescoço, senão o homem não morria.
Na decapitação por machado a dor do apenado podia ser ainda maior, porque tudo dependia da habilidade do verdugo. Volta e meia o executor não acertava exatamente no pescoço, mas no lado do queixo, no meio do rosto ou nos ombros da infeliz vítima.
Neste 2009 comemoram-se 500 anos da ascensão ao trono da Inglaterra do rei Henrique VIII. Zero Hora inclusive publicou matéria a respeito, domingo passado. Henrique tornou-se célebre por sua quantidade de esposas (meia dúzia) e por desenvolver o inquietante hábito de enviar para o cadafalso pessoas com as quais desfrutava da maior intimidade, entre elas duas de suas mulheres e dois dos seus secretários pessoais que exerciam a importante função de primeiro-ministro. Eram eles Thomas More, o humanista que escreveu um livro intitulado Utopia, de onde derivaram-se a palavra e a noção de utopia, e Thomas Cromwell, famosa raposa política do século 16. Cromwell caiu em desgraça por ter sugerido ao rei casar-se com uma dama que ele, rei, não conhecia. Um arranjo político, é evidente. Como monsieur Daguerre ainda não havia inventado a fotografia, Henrique pediu que um pintor fizesse o retrato da moça. Pintado o quadro, o rei analisou-o, refletiu, ponderou e terminou por aprovar a donzela. Contratou casamento. Se vivesse em tempos de Internet, Henrique saberia que mesmo as fotos de corpo inteiro são enganadoras e que nada substitui o contato epidérmico. Quando viu a pretendente ao vivo, estremeceu. Era um bagulho de assustar criancinha. Aguentou o casamento por seis meses, ao cabo dos quais separou-se da dama e fez com que Cromwell se separasse de sua cabeça. Como estava (com toda razão!) furioso com o secretário, ordenou que o algoz encarregado de cumprir a pena fosse um jovem inexperiente. O rapaz, decerto nervoso por estar prestes a operar um cliente célebre, só conseguiu decepar Cromwell após três tentativas, o que deve ter sido muito irritante para Cromwell, mas pelo menos deixou bem claro para todo o reino que Henrique VIII não ficava com mulher feia.
A destreza do carrasco era tão fundamental que Ana Bolena, outras das mulheres de Henrique VIII que escalaram os degraus do cadafalso, exigiu que seu executor fosse um certo francês considerado mestre no ofício. Esse francês não empregava o machado vulgar na degola, mas espada, e gabava-se de sempre, sempre!, atingir o pescoço da vítima de forma precisa, piedosa e indolor. E foi desta forma que ele despachou Ana Bolena para as páginas da História. Com um zap.
Lendo esses relatos da História, o momento que me vinha à mente ao pensar na execução da pena de morte era o do pênalti no futebol. Nada mais parecido, no âmbito do esporte. Nada mais capital. Dias atrás, ao assistir à entrevista do Ronaldo Nazario com Marília Gabriela, essa imagem consolidou-se em mim. Ronaldo, um executor frio e experiente, confessou que, na hora do pênalti, ele quase chega a vacilar.
– É um momento especial – admitiu. – Estão lá só você, a bola e o goleiro.
O centroavante, a bola e o goleiro. O algoz, seu instrumento de trabalho e o condenado.
É uma aflição, o pênalti. Quase uma tortura. Por isso, reprovo a paradinha; a bola tocada mansa e debochada, inalcançável ao goleiro; a cavadinha; o escárnio. Reprovo. Pênalti exige solenidade. Mais: pede piedade. Uma execução rápida e indolor é o que de mais humano pode-se pedir na hora de qualquer penalidade máxima. No futebol ou no jogo da vida.

David Coimbra

thunder

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

COIMBRA

Coluna do David Coimbra na ZH de hoje.

O doce sangue do outro

Brasileiro adora um velório. Lógico, velórios são importantes, psicologicamente falando. Pois a história da vida de um homem é a história das suas perdas e, sobretudo, de como ele lida com elas. No caso de uma morte, de resto uma perda bastante definitiva, o velório serve para que os vivos se acostumem com o (em geral) infausto ocorrido. É por isso que as pessoas devem passar pelo caixão e olhar para o morto. Para que sua mente registre: ele não fala mais, não se mexe, não respira; ele está morto. E não é por outro motivo que o homem pré-histórico já realizava funerais. A sabedoria ancestral.

Faz-se essa liturgia quando da morte de um ente querido. Um amigo. Um familiar. Ou um personagem público muito admirado. Vide os funerais de Aírton Senna, de Getúlio Vargas e de Tancredo Neves que mobilizaram o Brasil, ou o de Lady Di, que comoveu o planeta via satélite, ou o de Lincoln, que cruzou os Estados Unidos em cima do aço de trilhos de trem.

Certo. Mas como se explica 30 mil pessoas comparecerem ao sepultamento de uma desconhecida, como aquela menina que foi assassinada pelo namorado em São Paulo dias atrás? Aí a distorção nacional. O brasileiro tornou-se um consumidor de tragédias. Nada a ver com o gosto pela crônica policial, pelo mistério, nada disso. Eu mesmo sou um entusiasta da Editoria de Polícia, onde muito trabalhei, e com deleite. Porque, sempre digo, não existe nada mais humano do que um assassinato, e todo assassinato tem uma história interessante. Pode ser uma briga de bar – conte o dia em que a vítima acordou para morrer e que o assassino acordou para matar e, pronto, você tem uma bela página.

Mas o acompanhamento ansioso do enterro de uma vítima ou o consumo sôfrego de certas minúcias da tragédia, como se tem visto, isso foge do fascínio pelo mistério. E a volúpia pela desgraça alheia é tamanha que até o jornal televisivo mais respeitado do país, o Jornal Nacional, entrega-se à tentação de explorá-la. O que me decepciona, eu que sempre fui, e sou, admirador do Jornal Nacional. Há quem justifique que tal se dá devido à luta pela audiência medida minuto a minuto. Mas ainda acredito no jornalismo. Ainda creio que, a médio e longo prazo, o jornalismo sério tem mais audiência do que a apelação.

Enfim. A verdade é que os telejornais estão atendendo a um apelo do consumidor e o que me interessa aqui é saber por que o brasileiro se transformou nesse vampiro de controle remoto. Digo por quê: por causa do vazio. O sujeito atravessa seus dias num emprego monótono e as noites no cárcere de um apartamento de dois quartos dividido com a mulher e os três filhos, ele não sai de casa com medo da violência e não tem dinheiro para viajar, nem ler ele lê porque ninguém o ensinou a gostar de livros, e o pior: ele vive em algum lugar selvagem e árido como São Paulo. Quer dizer: a vida dele não tem sentido. Assim, quando esse triste brasileiro encontra motivo para uma emoção poderosa e inofensiva, ele, de alguma forma, se realiza. Donde, 30 mil pessoas no enterro da menina desconhecida do subúrbio, uma multidão cevando suas próprias emoções rasteiras, tirando fotos do caixão com seus celulares luminosos, chorando, escabelando-se, se desesperando. Vivendo, finalmente. As tragédias de telejornal são a salvação espiritual do brasileiro medíocre.

Vidas vazias. Vazias vidas.

Rafa

sexta-feira, 20 de junho de 2008

DAVID COIMBRA

coluna de hoje do Zero Hora, como sempre muito bem escrita, e com um assunto pertinente

Abaixo a felicidade

É que a felicidade é superestimada. Desde Freud isso, embora, claro, Freud não seja culpado.
As pessoas querem ser felizes, ponto. Quando você pergunta para alguém:
- O que você quer para o seu filho?
Essa pessoa invariavelmente responde:
- Quero que ele seja feliz.
Depois, a criança cresce e os pais vão repetindo:
- O importante é que você seja feliz, meu filho. Você está feliz? Você tem que ser feliz.
A felicidade é o fim em si. O objetivo da vida.

Trata-se de uma distorção rasteira. É como alguém dizer que trabalha para ganhar dinheiro. Quem trabalha para ganhar dinheiro provavelmente não ganhará dinheiro com o trabalho. Um teorema simples: ganha dinheiro com o trabalho quem trabalha bem, trabalha bem quem tem prazer com o que faz. Logo, quem tem prazer com o que faz ganha bem. Uma redução, sei, mas é para resumir que servem as reduções.
A felicidade, se promovida a objetivo de vida, tudo o mais fica subordinado a ela. A pessoa luta por sua satisfação, o resto fica em segundo plano. Os outros ficam em segundo plano. Os valores da pessoa são ela mesma. Então, vale tudo para a obtenção da felicidade.
O filho daquele pai que lhe repete que o importante é ser feliz, por exemplo, já crescidinho ele passa em frente ao orelhão e pensa: esse telefone ficaria bem no meu quarto, meus amigos achariam muito engraçado. Aí ele vai lá e arranca o fone. Leva-o para casa, orgulhoso.
E o pai, ele desliza com seu carro pela cidade mastigando um Amor Carioca. Não sabe o que fazer com a embalagem do bombom e conclui: ah, o meu carro é que não vou sujar. Sem vacilar, abre a janela e atira a bolinha de papel no asfalto. A cidade não interessa, porque os outros não interessam.
Esses mesmos personagens, pode chegar um dia em que eles ocupem algum cargo público. Pode ser que um dia lidem com o dinheiro público. O raciocínio deles não mudou, eles ainda acreditam que nada vale mais do que sua própria felicidade. E aquele dinheiro, afinal, é dinheiro de ninguém. Bem como a via pública e o fone do orelhão são de ninguém. Assim, por que não tomá-lo, o dinheiro público, e satisfazer seus desejos e realizar seus sonhos e, enfim, ser feliz?
Os corruptos do Brasil, tanto quanto qualquer egoísta satisfeito que senta ao seu lado no trabalho, eles só querem ser felizes.
Os corruptos brasileiros são uma chaga, mas também são uma bênção. Sobretudo para o gaúcho. O gaúcho acostumou-se a analisar o mundo com uma singeleza comovente. O gaúcho é contra ou a favor, é pelo sim ou pelo não, acha certo ou errado. Não é por acaso que a rivalidade Gre-Nal é assim acérrima. O gaúcho gostaria que a vida fosse um Gre-Nal. Bastaria escolher um lado, lutar contra o lado oposto e, pronto, não seria mais preciso pensar no assunto.
Mas, não. A vida é um pouco mais sofisticada. As carroças atrapalham o trânsito e maltratam os cavalos, mas os carroceiros precisam sobreviver; o MST é violento, mas a questão dos sem-terra tem de ser resolvida; o Brasil depende da agricultura, mas a Amazônia há que ser preservada. Tudo tão complicado... Porém, se há corruptos, o quadro fica mais claro. Pode-se ser contra os corruptos, eleger os corruptos como culpados e dormir tranqüilamente. O problema é quando os valores da sociedade geram a corrupção. Aí fica difícil de identificá-los, os corruptos, porque eles estão em toda parte. Eles estão no meio de nós. E a vida fica complicada de novo.

thunder

sábado, 24 de maio de 2008

LIVROS QUE RECOMENDAMOS

Como eu prometi que viria novamente em um post perdido no passado, hoje escreverei para comentar sobre o livro Canibais: Paixão e Morte na Rua do Arvoredo, do David Coimbra, que eu acabei de ler. Afirmo que o livro superou muito as minhas expectativas, Coimbra por suas crônicas semanais já 'apavora', no bom sentido, e esse romance surpreendeu-me demasiadamente, pela leitura instigante e envolvente e emocionante e todos os adjetivos que um bom romance merece. O livro é baseado em uma história real que se passou no século 19 em Porto Alegre, onde o açougueiro Ramos e sua mulher Catarina assassinaram friamente dezenas de homens para fabricar linguiças no açougue. Ironicamente, as linguiças feitas com carne humana eram as mais vendidas, tornando as pessoas da pequena cidade então involuntários canibais. Vale muito a pena ler.


Rafaela

sábado, 26 de abril de 2008

PRESENTES LEGAIS

Na quinta-feira que passou, essa pessoa que vos escreve ficou um pouco mais idosa (não confundir com rugas e afins) e por ocasião da data, ganhou presentes legais dos queridos amigos Tina e Thunder (não confundir com Tina Turner). São dois livros do prestimoso escritor porto-alegrense David Coimbra, a quem admiro e gosto pra caramba: o romance Canibais, Paixão e Morte na Rua do Arvoredo e o livro de crônicas Mulheres. Não posso comentar nada sobre o conteúdo dos livros agora, pois ainda não os li, mas estou ansiosíssima para tal. Em outros posts, comentarei-os. Já agradeci aos meus amigos, mas não custa nada reafirmar. Obrigada novamente.





Rafaela